Blog do Paraíso

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

A tragédia de Rali (última parte)


Dia bonito! O céu bem azul. O sol brilhante. Nunca me senti tão bem. Literalmente, acordei com o pé-direito. Esse dia tem tudo para ser único, pensei. Após tomar o café, somente o café puro, como de costume sem pão, bolo ou frutas, sai para a rua com aquela certeza de que tudo iria dar certo. Afinal, nunca vi um dia tão bonito, no meu aniversário, quanto esse. Eu, Rali, completo hoje 15 anos de vida.

Antes de ir à casa do meu amigo João combinar uma “fita”, marcada para hoje, decidi sentar na calçada de minha casa para tomar um pouco de sol. Natasha, minha vizinha e amada, linda como sempre, passou pela rua, com destino a padaria. Desejei-lhe um bom dia. Ela me respondeu com um sorriso amarelo. Desde que eu a namorava, ela nunca tinha sorrido daquele jeito. E toda vez que passava por mim, sempre me dava uma abraço e um selinho na boca. Não entendi por que, naquele dia tão bonito, ela nem se quer passou perto de mim. O sorriso me revelou uma Natasha que eu não conhecia. Talvez aquele dia não estivesse para ela como estava para mim: especial. Entendo, portanto, a atitude de minha amada, pois há dias que não me sinto bem. Tudo parece dá errado. Imagino-me, às vezes, vivendo no inferno, quando, na realidade, o mundo está do mesmo jeito. Maravilhoso, belo e especial. Ou seja, tudo depende do estado de espírito da pessoa.

Aquele gesto de Natasha, que denunciou o esquecimento dela do meu aniversário, felizmente, não estragou meu dia. Não entendi. Continuei me sentindo tão bem quanto antes. E depois de alguns minutos sob o sol, dirigi-me à casa do João.

- João! João!

Gritei pelo portão. São raros os barracos da invasão da Vila Estrutural que têm campainha. A cabeça de João apareceu na porta. Ele deu uma olhada e disse:

- Ah! É você, Rali? Pode entrar, o portão está aberto.

- Feliz aniversário amigão!

João me deu um forte abraço.

- Pô, bicho, pensei que você não ia lembrar do meu aniversário, assim como a Natasha.

- Que isso Rali? Como você me compara com aquela p...

João se lembrou que eu não gostava que falasse mal de Natasha, mesmo quando os fatos erram verdadeiros. Ele, portanto, mudou de assunto.

- Bom... Vamos ao que interessa. Ó! Vai ser mais do mesmo. “Vamo” chegar lá apontando as “máquinas” (revolveres). Você recolhe o dinheiro do caixa enquanto eu te dou cobertura. Como hoje é o seu dia, você vai ficar com mais da metade do dinheiro, falou?

- Pode crê, “mulequim”!

Sempre antes de “meter uma fita”, João observava o local previamente para saber o horário de pouco movimento e se a polícia fazia, com freqüência, ronda no comércio que nós íamos roubar. João também tomava o cuidado de contar novamente o que nós já havíamos planejado.

O assalto ocorreu como imaginávamos. Não era possível que num dia bonito como aquele as coisas dessem errado. Mas... Algo me perturbou. Acho que até estragou meu dia. Enquanto retirava o dinheiro do caixa, percebi que o dono da loja me observava. Fitei-o, senti um ódio no olhar dele. Fiquei com aquela imagem em minha cabeça até escurecer. Sentado no sofá, tentei decifrar o que aquele olhar cheio de ódio queria me dizer. De repente, no portão de minha casa, o grito de João tira minha concentração. Tínhamos o costume de ficarmos na frente de meu barraco conversando até tarde da noite. Geralmente, contávamos histórias de “fitas”, “tretas” e “frevos” passados. Porém, dessa vez, resolvi revelar ao meu amigo o que me angustiava.

- Ah! O que é isso, Rali? Isso é besteira!

Para João, podia até ser. Mas para mim, não. Senti um pressentimento muito ruim misturado com um medo mórbido.

- João, “di rocha” (realmente), estou com medo.

- Medo de quê?

- Não sei, cara.

Assustado, eu olhava desconfiado para todo mundo que passava naquele instante na rua. Vi na esquina uma luz de uma moto que se aproximou rapidamente. O motoqueiro usava uma jaqueta preta. O capacete, da mesma cor, escondia a identidade do condutor da moto, que parou na nossa frente. Puxou uma pistola da cintura. Não disse uma se quer palavra. Disparou três tiros em mim. Um na minha barriga, outro no pescoço e o terceiro, fatal, na minha cabeça. João tentou correr, mas não conseguiu escapar para contar a história. História que é contada agora, diretamente do Além, para você, estimado leitor. O que aconteceu depois (a minha agonia) você encontrará na primeira parte deste texto.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

A tragédia de Rali (VIII parte)


Vida louca. Ou melhor, ainda, “vida loka”, como escreve Racionais Mc’s, grupo de rap ausente na grande mídia, mas presente em toda periferia brasileira. Cito o grupo, pois a letra da música deles explica uma boa parte da minha vida. Principalmente agora, que decidi me virar como o João. Isso mesmo. Entrei para a gangue do meu melhor amigo. Afinal, não tenho nada a perder. Como proclamam meus ídolos, sou “que nem um vira-lata sem fé no futuro”. Entre “viver pouco como rei, ou então muito, como um zé”, escolhi a primeira alternativa.

Para ter fama, mulher, respeito e sustentar meu vício, comecei roubando na minha própria “quebrada”. João era meu parceiro. Mais experiente, ele me ensinou os macetes da vida do crime: evitar disparar o revolver, mas, se for impossível, atirar para matar. A teoria foi fácil e simples de aprender. Já a prática não foi tão simples. Entretanto, depois de muitos assaltos, não tive mais dificuldades. Felizmente, nunca cometi um latrocínio, minhas vítimas ficavam apenas feridas.

Outro negócio que rendia bastante, além dos assaltos, era o tráfico de drogas. Ofício onde tive também um bom desempenho. A polícia nunca conseguiu me pegar, pois eu nunca estava com a droga em meu corpo. Eu a escondia em buracos das calçadas, de tijolos dos muros dos vizinhos, em moitas, enfim, aonde os PMs não pudessem encontrar. Nunca era onde eu ficava. Sempre “mocosava” a droga em um lugar um pouco distante. Meu ponto de venda comumente era numa esquina, que não ficava na minha “quebrada”. Tudo para despistar “us pulíça”.

O ruim da vida do crime são os inimigos que a gente faz. Geralmente, é neguinho que não paga a droga. Fulano que leva uma “fita” e tenta se vingar. Ou beltrano folgado que caça “treta” (confusão) sem mais nem menos. Já matei dois vagabundos folgados e nunca fui preso. A polícia sabia a procedência das vítimas, portanto, nem fez questão de ir atrás. Recentemente quase que “passei” (matar) um terceiro. O “comédia” (otário) se engraçou com minha “dona”, a Natasha. A propósito... Nem contei como consegui conquistar a musa dos meus sonhos. Bom. Foi assim: meu amigo João despachou Natasha depois que se abusou dela. Ela continuava sem me dar bola. Mas depois que virei “maloqueiro” e passei a andar com um revólver calibre 38 na cintura, de uma hora para outra, sem mais nem menos, ela pulou em meus braços. Nem precisou de “k-ô” (mentira). Eu, tomado de grande emoção e paixão, aceitei. Esqueci todas terríveis histórias que ouvi dela. Perdoei, pois quem ama perdoa.
Continua...

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Artigo sobre a cobertura dos maiores desastres da aviação brasileira: afinal, a qual interesse o Jornal Nacional busca atender?


O grande mérito deste blog é proporcionar discussões por meio de questões e comentários feitos por mim e pelo leitor. Hoje, quero discutir a brilhante cobertura do acidente com o avião da companhia TAM, realizada pelo Jornal Nacional de ontem (dia 17 de julho de 2007), transmitido pela Rede Globo de Televisões.


Confesso que, antes do telejornal começar, eu acompanhava pela Rede Record a cobertura da ginástica olímpica dos jogos Pan-Americanos. No meio da programação, o narrador deu uma nota sobre o acidente. Após o termino da transmissão dos jogos, veio o jornal local. Depois, o noticiário nacional da emissora. O Jornal da Record (JR) iniciou com um furo. As informações e as imagens do acidente com o avião da TAM vieram por meio de um repórter em um helicóptero e de outros jornalistas, mas por telefone. Durante alguns minutos, a apresentadora Adriana Araújo disse que o número de passageiros era de 180, mas no vídeo aparecia 170. O JR afirmou que o número foi fornecido pela TAM. Em meio a incoerência, mudei de canal com a esperança de obter informações precisas. Fui direto para o canal da rede Globo, afinal, já era 20h e 15 min, tempo que geralmente o Jornal Nacional (JN) começa. Porém, frustrei-me. A bendita novela “Sete Pecados” ainda não tinha acabado. Novamente, sai à procura de outro telejornal. Encontrei um na Rede Band, mas não suportei os comentários do apresentador, cujo nome não recordo. Tive, portanto, de me contentar com o JR. Quando retornei à emissora, o número que aparecia no vídeo foi corrigido. Agora, estava de acordo com a apresentadora que insistia em dizer que a informação era da TAM. Entretanto, depois de uns minutos, o número na tela da TV retornou para 170. Nesse período, mudei várias vezes da Record à Globo, na esperança da assistir ao Jornal Nacional. Se não me engano, ele começou às 20h e 30 min. Só então fiquei sabendo que a TAM ainda não tinha informado o número de passageiros. Agora, sim, eu estava assistindo a um jornal de alta precisão e tecnologia. Como num passe de mágica, o apresentador William Bonner se comunicou, ao vivo, com repórteres localizados em três capitais do país. Dois estavam em Congonhas, aeroporto de São Paulo, onde a tragédia havia acontecido. Outro jornalista transmitiu informações diretamente do aeroporto de Porto Alegre, o Salgado Filho. E um terceiro informou, de Brasília, a atitude do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, diante do desastre. Realmente foi uma ampla cobertura jornalística. Um milagre da informação em tempo real. Naquele momento, imaginei na correria que podia está na redação do JN. Acho que eles tiveram que abreviar um monte de reportagens. Acredito também que o atraso do telejornal também ocorreu por causa dos preparativos para a cobertura do acidente. De fato, foi uma demonstração da qualidade do jornalismo da emissora. Com o roteiro bastante alterado, o JN terminou às 21h e 39 min. Nossa! Pensei. Tudo pela informação de qualidade para o telespectador. Que jornalismo!!

Mas... Caro leitor, no momento de tanta admiração, recordei-me do acidente que ocorreu ano passado, com o avião da companhia Gol. Foi aí que me vieram algumas questões. Ah, essas questões! Só elas mesmo para me motivarem a escrever as discussões deste blog. E qual foram as questões inspiradoras? As seguintes: por que o JN não realizou uma cobertura tão brilhante quanto essa, que acabei de descrever, no acidente com o boeing da Gol? Qual era o assunto mais importante e que ocupou todo o noticiário do JN a ponto de ele não se mobilizar para noticiar o acidente com o avião da Gol? Ajude-me, leitor, a me lembrar o que ocupou a programação do JN daquela sexta-feira, dia 29 de setembro de 2006. Com certeza era mais importante que os jogos Pan-Americanos e que as vidas perdidas na tragédia, pois o conteúdo não foi abreviado.

Já sei! A TV exibiu, com grande pompa, as fotos do dinheiro que seria usado para pagar o dossiê contra o então candidato ao governo do estado de São Paulo, José Serra. O documento seria comprado pelo Partido dos Trabalhadores (PT), o que não é crime eleitoral, mas foi noticiado como tal por toda imprensa anti-Lula. Como vocês devem saber, os petistas se deram mal porque a Polícia Federal desbaratou a trama. E o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também, pois um superintendente da mesma PF, que muitas vezes é acusada de trabalhar para Lula, vazou para a imprensa as imagens do dinheiro três dias antes das eleições presidenciais.

Esse foi o assunto mais relevante que o acidente com o avião da Gol. Estimado leitor, tenho, portanto, mais três questões: será que o JN realizou a magistral cobertura do acidente com o avião da TAM simplesmente para informar a sociedade? Ou o motivo maior foi atingir a imagem do presidente, já que tudo de ruim que acontece no setor de aviações é credenciado à crise aérea? Afinal, a qual interesse o JN busca atender?

Antes de alguém apontar minha ignorância ao afirmar que os acidentes são bem diferentes e não podem ser comparados, pois um ocorreu no meio de uma floresta e o outro dentro de uma grande metrópole, saliento que, no dia do acidente com o boeing da Gol, o JN não deu uma notinha se quer. E não foi por falta de tempo. O desastre aconteceu praticamente no mesmo horário da tragédia recente. No mínimo, o JN deveria dar uma nota. Mas, como na época o acidente era o maior da história da aviação brasileira, acredito que o noticiário deveria entrar ao vivo do aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus, de onde o avião partiu. Depois, do aeroporto do Rio de Janeiro, Antônio Calos Jobim, destino da aeronave. Em seguida, de Brasília, para informar as medidas das autoridades e do presidente de República. Ou seja, uma cobertura semelhante a realizada ontem pelo JN. Mas o que foi feito naquele dia? Nada! Portanto, insisto na pergunta: afinal, a qual interesse o JN busca atender? Será que ele é feito para os mais de 50 milhões de brasileiros que o assiste?

sexta-feira, 13 de julho de 2007

A tragédia de Rali (VII parte)


João não parecia a mesma pessoa. Só andava bem vestido. Ganhou novos amigos. Inclusive uma namorada: Natasha. Obteve também respeito e temor. Em meio a tantas conquistas, João estava preste a perder a minha amizade. Pois, além de ter usurpado a musa dos meus sonhos, não tinha mais contato comigo.

Porém, como prometido na missa daquele domingo, João veio ao meu encontro e me contou como mudou de vida. Ele se aliou aos traficantes da “quebrada” (quadra). Agora era assaltante e vendedor de drogas.

- E aí! Por que você não entra nessa também?

- É doido é? Não quero ser preso.

- Que é isso, Rali? Eu “rodei” uma vez. Fiquei uns quarenta dias num centro de recuperação para menores. Lá, fui tratado como um príncipe. A comida era ótima. É o mesmo que pode acontecer com você, pois também não tem mais de 18 anos.

- É mesmo?

- Claro! Outra coisa, isso se te pegarem. Sendo meu parceiro, será bem difícil. Tornei-me profissional. E aí, está dentro ou fora?

- Ah... Não sei.

- Qual é cara? Você não quer ter respeito, andar bem vestido, conquistar as gatinhas, enfim, ser como eu? Olhe para mim. Olha! Você sabe muito bem quem estou pegando. Estou namorando aquela sua vizinha, a...

- Natasha... Pô, cara! Você não é meu amigo? Eu te falei que estava afim dela. E você nem se importou.

- Não é bem assim. Aquela “dona” (garota) não é o que você pensa. Ela é uma vadia. Está comigo só por interesse.

- Olha o respeito!

Não pude permitir que meu amigo ultrajasse Natasha daquele jeito. Ela podia namorá-lo, mas ainda estava no meu coração. Dei, portanto, um empurrão nele, que disse:

- Pô, “bicho” (camarada)!! Estou tentando te alertar. Aquela “dona” é “mó banda” (muito vagabunda). Ela não presta. Sabe como foi que “fiquei” com ela pela primeira vez? Quase comi... Nossa amizade é bem maior que aquela putinha.

- O quê?

- É, cara. Quando eu entrei no mundo do crime, passei a andar bem vestido, ganhei respeito e moral, além de, é claro, muita fama. Ela percebeu. Quero dizer, ela e um monte de “donas da quebrada”. Mas Natasha foi esperta, não perdeu tempo. No primeiro “frevo” (festa) que fui, ela chegou a mim. Convidou-me para dançar. Quando menos esperei, deu-me um beijo de língua. Nem eu mesmo pude acreditar. Quem diria? Aquela menina tão recatada, tão casta e religiosa. E a carinha dela de santa? “Vei” (camarada), só propaganda! Você nem imagina o que rolou mais tarde. Fui deixá-la na casa dela. No meio do caminho, encostamos num canto escuro. A coisa esquentou. Ela ia dá para mim naquele momento. Só que ela desistiu quando ficou sabendo que eu não tinha “capacete” (camisinha). Se não fosse por falta de um, teria traçado aquela vadia. Porém, fiz de tudo. Só não comi. Chupei aqueles peitinhos dela. Meti a mão na xoxota. Foi aí que ela se soltou. Pegou em meu cacete. Tirou de minhas calças. E caiou de boca...

- Para! Chega! Eu não acredito nessa mentira, seu mentiroso.

- Você que sabe. Só sei de uma coisa. Vou me aproveitar dela mais um pouco e depois darei um pé no traseiro gostoso dela. Afinal, já estou pegando coisa melhor. Aí, mané, você pode pegar também. Só que nesse estado que você está, “mulambento” (maltrapilho), elas não vão querer. Principalmente a Natasha, que é muito interesseira. Ela quer homens com grana e não um pé-rapado como você. Por isso, cara, entra nessa. Vou te dar um tempo para pensar. Agora, tenho que ir. Preciso fazer uma “fita” (roubo). Ultimamente ando muito ocupado. Sabe como é, né? Sou trabalhador autônomo. Falou, brother.

João me deu um abraço bem apertado. E me disse.

- Não fica triste não, “vei”. Não vale a pena. Já te disse. Aquela “dona é mó banda”. Trabalhe comigo e terá mulheres melhores.

Falei para o meu amigo João que daria a resposta em uma semana. Disse que precisava pensar durante esse período. Porém, não consegui pensar em outra coisa senão na Natasha. Não comi, não dormi, não sai de casa. Apenas chorei. Como uma utopia se tornou em uma vadia, como definiu meu amigo? De princesa à meretriz. De mulher de respeito à puta. Não pude acreditar. Não posso acreditar...

Continua...

segunda-feira, 2 de julho de 2007

A tragédia de Rali (VI parte)


Não vejo nenhum muro em volta da cidade. Não estou amarrado a nenhuma corrente. Entretanto, sinto-me preso. Na invasão da Estrutural, não há nada de interessante para se fazer. Há casas, ruas e igrejas. As pessoas vivem acuadas. Vão da casa para o trabalho e do trabalho para a casa. Nos finais de semana, vão à igreja. A opção dos “jovens de bem” nos finais de semana também é a “casa de Deus”.

Resolvi aceitar de vez essa condição, afinal não tenho para onde ir. Outra coisa, a cidade é a minha cara. Os habitantes falam a mesma língua que eu. São da mesma etnia: mestiço. O idioma que falamos não é o mesmo que está na gramática e que é falado por moradores dos grandes centros urbanos brasileiros. Não me sinto igual a eles. Eles também devem pensar a mesma coisa. Afinal, neste país, há duas nações brutalmente separadas pelas condições socioeconômicas.

Portanto, este é o meu lugar. Não quero me misturar com a outra nação. Eles devem ter o mesmo desejo. Pois somos perigosos. Pobreza virou sinônimo de violência. Mas ninguém se questiona porque isso aconteceu. Veja só meu caso. Quando completei 12 anos, entendi o que era ser pobre. Desejei um tênis legal, de marca e na moda, mas não pude comprar. Eu queria dar um presente para Natasha, também não consegui. Para conquistá-la, precisava vestir roupas legais. E não as encardidas e furadas que eu usava. Para piorar a situação, tornei-me dependente químico. Meus pais mal tinham dinheiro par me alimentar. Portanto, como satisfazer meus desejos sem capital?

- E aí, Rali!
- E aí, João!
- De boa?
- De boa!
- Só!
- Só!

João veio conversar comigo quando eu matutava essa questão, sentado na calçada da esquina.

- João, estou quebrado.
- Mas quando foi que você teve dinheiro na vida, Rali?
- Pois é, cara. Estou cansado de andar assim: pé-rapado.
- Eu também, bicho. Estou cansado de serrar bagulho dos outros. Agora mesmo vim te perguntar se você tem algum aí.
- Não, cara. Pior que não.
- Oi, Rali! Tudo bom?
- E aí, Natasha! Tudo.
- Cara, quem é essa gatinha que acabou de passar?
- É a minha vizinha, João. Vou alugá-la.
- Ah! Sem chance, bicho. Veja só seu estado. Pé sujo, bermuda desbotada e essa blusa... Além de encardida, rasgada.
- E você, João? Também não está muito diferente.
- É, mas não fui eu que disse que ia alugar aquela princesa.
- Ah! Vai se lascar.
- Qual é, velho? Ta apelando é?
- Você não disse que estava atrás de um bagulho? Vai lá. E aproveita e traz para mim também.

João foi numa “boca de fumo” próximo a uma igreja evangélica. Os traficantes estavam cansados de “bacanizar” bagulho para ele.

- Qual é, bicho? É cincão.
- Pô, velho. Você sabe que não trabalho. Ainda sou menor de idade.
- Azar seu, mané. Aí... Por que você não vem comigo fazer uma “fita”? Se der certo, racho a grana contigo. Se der errado, você vai ter que assumir a culpa. Dizer que a “máquina” é sua e tudo mais.
- Eu! Por que eu?
- Pô, mané. Porque tu é de menor. Não vai ficar preso.

O vício falou mais alto que a razão. João aceitou a proposta. Depois disso, ele desapareceu. Fiquei sem vê-lo por três meses.

Num certo domingo, resolvi ir à missa. Não era de meu costume, mas quando descobri que Natasha estava sempre lá, passou a ser. Nesse dia, sentei ao lado dela.

- Oi, Rali!
- Oi!

Antes de iniciar a missa, batemos um papo. Percebi que ela usava um anel de compromisso.

- Você está namorando, Natasha?
- Sim. Acho até que você conhece meu namorado.

Fiquei imaginando qual seria o playboy que tinha presenteado Natasha com anel tão caro. Não me veio na memória nenhum.

- Não, Natasha. Não conheço ninguém que tenha dinheiro para comprar um anel tão bonito e visivelmente caro. Quanto foi?
- Não sei. Pergunta para o meu namorado. Ele está vindo logo aí.

Não pude acreditar no que vi. Aquele menino que andava tão mal vestido quanto eu não parecia a mesma pessoa. Usava agora roupas novas e de marca. João estava nos “panos”. Sem contar minha musa que ele acabara de roubar. Desejei profundamente estar no lugar do meu amigo.

- E aí, Rali!
- É você, João? O que aconteceu?
- Depois eu te dou idéia. Vamos assistir a missa, pois o padre já chegou.

Continua...

quarta-feira, 27 de junho de 2007

“Amor impossível”, respondeu


Eu gosto de você
Um gosto sem explicação
Real, forte e intenso. Consegue entender?
Isso não é fácil. É imprevisível e tem muita emoção
Devo dizer?
Entendo que não
Só imagino que você deve saber que a causa é você

Então, facilite as coisas, querida
Urgentemente preciso de resposta
Rápida, boa e colorida
Importa saber se você gosta
De mim, para receber uma margarida
Envolta de laços e com minha proposta
Sorrisos, muito carinho e atenção, amiga

Estarei satisfeito
Ultimamente, não estou
Reprovo o que você tem feito
Informação é o que faltou
Deve ser o seu jeito
Entenderei porque a vida me ensinou
Somente perdoando existirá amor perfeito

A tragédia de Rali (V parte)



Há quem diga que amizade não existe. Outros afirmam que o título de amigo é muito grande para uma pessoa. No meu entender, quem pensa assim é covarde. Tem medo de ser traído ou de se frustrar com um amigo. Existe essa possibilidade, não nego. Mas se você não correr o risco, perderá também a oportunidade de experimentar as coisas boas da amizade.

Outra coisa que não se deve esquecer é que um amigo, antes de tudo, também é humano. Do ser humano deve se esperar tudo. Mentira, falsidade, traição, tudo. Afinal, não é um Deus. É muito complicado ter um amigo, quando não se olha para si mesmo. Principalmente, perdoá-lo.

Eu tenho um amigo. Não tenho medo de dizer, não sou covarde. João é o meu amigo. A aparência dele combina com o nome. Parrudo. Talvez essa seja a palavra que se enquadra ao físico de João. Talvez seja por isso também que ninguém nunca o chamou de Joãozinho.

João é uma espécie apta. Está vivo porque passou pala seleção natural da vida. Pois a mãe dele, Maria Caipralá, teve 17 filhos. Por falta de comida, cinco morreram. Outros cinco foram abortados com métodos caseiros pela mãe. Somente sete sobreviveram. João foi um deles. Como eu, ele e a família vieram do interior, foram morar num barraco caindo os pedaços na cidade-favela da Ceilândia. Depois de não pagarem o aluguel de três meses, foram despejados. Para não ficarem de baixo da ponte, a solução encontrada foi invadir, junto com outras famílias, a Estrutural.

Com quatro anos de idade, João chegou à Estrutural. Aos sete, em vez de ir para a escola, foi para os sinais de trânsito vender doces para ajudar na renda de casa. João não conheceu o pai, assim como os outros seis irmãos maternos que sobreviveram a seleção natural.

Como você, leitor, deve ter percebido, a família de João era mais pobre que a minha.

Para ser sincero, não me lembro como foi que falei pela primeira vez com João. Pois eu só tinha quatro anos. Porém, lembro que nossas brincadeiras eram bastante divertidas. A preferida era pique-esconde, até a gente completar 12 anos. Depois, as brincadeiras já não eram mais de criança...

Com 12 anos, entrei no mundo das drogas. E digo que não foi por influência do meu amigo. Isso é conversa fiada. Porém, muitos pais abestados acreditam.

Comecei com álcool, depois cigarro. Em seguida, maconha. Por fim, cocaína e merla. Não cheguei a usar outras drogas sintéticas por falta de grana. Somente a classe média tem esse privilégio.

Continua...

segunda-feira, 25 de junho de 2007

A tragédia de Rali (IV parte)


Vocês não vão acreditar como falei com minha amada pela primeira vez. Como não, mas onde conversamos. Foi em um lugar muito ruim. Um lugar que não dá nem um estímulo, nenhuma vontade de alugar (cantar) uma mulher. Ele não é ruim somente para isso. É ruim para tudo. É um massacre. Destrói a vida. Vocês conseguem adivinhar onde foi? Não? Bom, antes de lhes revelar onde foi, farei um prólogo.

Natasha se mudou para a invasão da Vila Estrutural quando eu tinha 13 anos. No primeiro momento, não notei aquela menina magrela, que toda vez passava em frente a minha casa quando ia à padaria ou à escola. Como tenho o costume de passar algumas horas de meu tempo na calçada da minha casa, via Natasha arrastar poeira na chinela várias vezes. Todo mundo naquela cidade arrasta poeira quando caminha pelas ruas, mas, em um determinado dia, com muita cannabis na mente, percebi que o arrastar de poeira de Natasha era diferente. Suave, leve. Parecia até que ela caminhava pelas nuvens. Foi aí que comecei a mexer com ela. Desejava bom dia ou boa tarde, ela nada respondia. Mandava uns coiotes, ela nem olhava para trás. Então, pensei, parece que, a cada ação minha, o ego e o orgulho dela dobra. Portanto, acreditei, Natasha não passa de uma utopia. Compus até umas rimas, certa vez fitando a lua cheia.

- Oh! Doce, amada, querida, linda, Natasha!!
Em meu coração, agora se acha
Olho para as estrelas e te vejo, sinto, desejo
Infelizmente, nunca experimentarei do seu beijo

Oh! Amada e querida
Flor, rosa, perfume, margarida
Campos, paixão e ilusão
Por que deixa em pedaços meu coração?

Oh! Doce e amada
Todas as vezes que vejo sua passada
Imagino uma coisa que realmente não queria
Utopia! Nada mais nada menos que utopia.

Sim, amigo leitor, esse foi um dos poemas que já chorei perante a lua. Durante um bom tempo, Natasha foi indiferente comigo. Mas, quando eu estava voltado do Plano Piloto, em um desses ônibus imundo e caindo aos pedaços, ou seja, justamente no pior lugar do mundo para alugar uma mulher, Natasha embarca. Havia somente um assento. E era ao meu lado. Pensei, dessa vez ela não me escapa. Mas, quando ela sentou, não acreditei naquela cena. Fiquei sem palavras, não falei um piu. Sou um fracasso, pensei. Deixarei passar esta oportunidade de conversar com ela pela primeira vez. Já me imaginava levantando da cadeira para descer do ônibus. Como o destino é injusto. Colocou-me ao lado dessa princesa justamente dentro dessa porcaria de transporte, que sacode para todos os lados, sem falar do barulho ensurdecedor do motor. Não há nenhum clima.

- Quantas horas?
Não acredito, ela falou comigo! Ela falou comigo!! Quero dizer, ela me deu uma cantada, pois perguntar as horas no ônibus é uma investida.

- Por favor, você tem horas?
- Você vem sempre por aqui?
- É... você tem horas?
- Sim, minha bicicleta é azul!!
- Não. Eu perguntei se você pode me dizer quantas horas são.
- É de sal ou de doce?

Fiquei bobo. Olhei para ela durante alguns minutos e só então entendi o que ela estava me perguntando.

- Ah! Sim. São 19h.
- Obrigada.
- De nada.
- Eu acho que já te vi em algum lugar.

Depois de satisfazê-la com a resposta, senti-me capaz de conversar com ela. A utopia já não era tão utopia, pois ela falava a língua dos homens.

- Sim, você já me viu. Só que acho que não foi só uma vez...

Natasha se demonstrou ao meu alcance. Realmente não sabia o quanto ela era simpática. Desembarcamos na mesma parada. Conversei tudo e muito mais que devia falar com ela. Tornei-me amigo de Natasha, portanto.

Continua...

sexta-feira, 22 de junho de 2007

A tragédia de Rali (III parte)


Confesso que quase mudei o título de minha história quando a vi. Pensei em “A vida é bela”. Ou “A paixão de Rali”. Ou ainda “A vida é dura, entretanto, o amor compensa”. Sim, leitor, foi amor a primeira vista... Amor a primeira vista? Para falar a verdade, não acredito em amor a primeira vista, mas, sim, tesão a primeira vista. Porém, meu caro, estou tentando contar este capítulo com o maior lirismo possível. Entenda, portanto, o exagero.

Bom. Mas no caso da minha amada, não foi tesão a primeira vista. Geralmente uma mulher tesuda é bem diferente da mulher “moderna”, que tem o corpo quase semelhante ao masculino, com bunda e seios pequenos. Já a mulher tesuda tem uma bunda bem redonda e avolumada, corpo no formato violão e seios fartos. Minha musa se enquadra no perfil da mulher idealizado pelas feministas, por isso que chamo de “moderna”.

A primeira vez que a vi nem me importei. Mas, repito, para minha história ficar romântica, digo que foi amor a primeira vista. Eu estava triste, caminhava pelo parque, observava laconicamente o horizonte, fitava o entardecer. Uma lágrima escorria de minha face. O motivo de tanta desolação, meu tinha havia perdido a final do campeonato.

Em meio à aflição, de repente, fui envolvido por um aroma de rosas. Conforme ela passava, a grama verde se transformava em um jardim de lindas flores. Os longos cabelos castanhos faziam movimentos cativantes e enfeitiçados. Naquele momento, senti uma sensação inefável...

- Vixe!! Lá vem os home!!
- Todo mundo para a parede!

Ufa! Ainda bem que a legislação não permite a prisão de usuários de drogas. Os Policiais Militares acabaram com minha lombra. Apagaram meu cigarro de maconha e me deram um bacu. Dessa vez eles não foram tão violentos. Não meteram o coturno em minhas pernas para abri-las mais ainda. Mas deram uma pancada um pouco forte no meu escroto ou popular saco.

Ora, leitor desatento. Moro na invasão da Vila Estrutural. Lá não tem parques urbanos. Eu estava, na realidade, na esquina puxando um beck. Realmente, triste, pois meu time, com já disse, perdeu a final. Natasha, minha vizinha e amada, caminhava pela rua sem asfalto. Arrastava poeira com a chinela. Joguei um coiote (assobio) para ela, que nem olhou. Não foi a primeira vez que a vi. Afinal, ela mora lá e passa todo dia naquela rua. De repente, uma viatura da PM passou e fez uma revista (bacu) em nós, eu e os manos que estavam comigo. Acho que o efeito da cannabis me fez descrever o cenário.

Já que aterrissei na realidade nua e crua, contarei como me apaixonei por Natasha no próximo capítulo.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

A verdade veio à tona



Hoje, na entrega de 130 novos ônibus para o sistema de transporte coletivo do Distrito Federal, eis o que o presidente do Sindicato das Empresas de Ônibus, Wagner Canhedo Filho, disse, segundo a CBN:


“Ônibus velho é bom para a população porque não aumenta a tarifa”


Por favor, comentem.


Surrupio, desfaçatez, indecoro
Política, democracia, instituição
Brasil, Brasília, sacanagem, prostituição
Jornalismo, vendido, mensalão
Ignorância, analfabetismo, atraso
Cordeiros, povo, brasileiro

Honestidade, bondade, ética
?
!
É...
?
Haja esforço mental!!
É...
Acho que poema para por aqui

quarta-feira, 20 de junho de 2007

O que seria da vida sem poesia?


O que seria da vida sem poesia?
Talvez o feijão sem arroz
O sexo sem amor
Enfim, algo sem sabor
Sem emoção, satisfação, sentido
Todo mundo deprimido

A poesia é necessária
Se não quiser uma vida precária
Veja o raiar do sol com lirismo
Deixe um pouco de lado o ceticismo

A poesia destrói o pessimismo
Faz uma mera coincidência
Ou um fato natural
Se tornar surreal
Dá-te a oportunidade de viver com veemência

Mas cuidado, nada de exagero
Pois tudo é passageiro
De olho no vermelho
Que a vida pode ficar
Caso você exagerar
Iludido ficará

É medo, respeito ou pagação de pau?

" O Renan pode falar como o Danton quando caminhava para o cadafalso: atrás de mim virás tu, Robespierre"

Este texto vai ser curtinho. Curtinho neste blog, mas extenso na mente do leitor criativo. Se você, que neste momento, por algum motivo, está com a mente estéril. Não consegue meditar nada. Volte mais tarde.

Já quem está disposto, sugiro que medite a respeito dos acontecimentos recentes no Congresso Nacional, juntamente com o título deste comentário, cujo faço questão de repetir neste parágrafo: “É medo, respeito ou pagação de pau?”


Desculpe pelo termo. Para quem não conhece a gíria, “pagação de pau” quer dizer bajulação. Portanto, caro leitor, responda-me, por favor, ou apenas medite consigo mesmo, nossos representantes estão querendo arquivar o processo de cassação do mandato do presidente do Senado, Renan Calheiros, por medo, respeito ou pagação de pau?

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Atenção, eleitores! Muita atenção!!


A Câmara dos Deputados vota hoje a reforma política. A reforma veio à tona após a Operação Navalha ser deflagrada pela Polícia Federal - PF. No início, a navalha parecia estar afiada. Mas, quando tocou na pele de alguns envolvidos, fez cosquinhas. Mal saiu o resultado, a imprensapoliciafederalesca noticiou outra operação. Denominada Xeque-Mate, a investigação circula em torno da família do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Eis a questão que me envolve agora. Será que os cidadãos brasileiros estão compreendendo o real significado desses fatos? Bom. A Operação Navalha, julgo, não. Afinal, antes de ser abafada pelas novas investigações da PF, foi misturada com a “pulada de cerca” do presidente do Congresso Nacional, Renan Calheiros, como noticiou o jornalista Leandro Fortes na revista Carta Capital.

Para complicar mais ainda a compreensão dos acontecimentos, colocou-se em discussão a legitimidade das investigações da PF. Pois, com a Operação Navalha, especulava-se que ela agia de acordo com interesses de um grupo de políticos desfavorecidos pelo atual governo. Já outros diziam que a PF atuava em favor do presidente Lula. Outros, ainda, afirmavam que se queria abafar a ação da PF, acusando os agentes de agirem com excessos nas prisões.

A discussão do real lado da PF também está presente na atual investigação. Agora, uns dizem que a Operação Xeque-Mate é uma estratégia do presidente para mostrar que a PF age por conta própria. Outros falam que o governo quer evitar a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito da Operação Navalha, por isso, traz a atenção da opinião pública para o novo inquérito da PF.

Em meio a tantas possibilidades desse jogo de interesses, e, para completar a dose, quero dizer, para complicar mais ainda o entendimento dos brasileiros acerca dos fatos, a Câmara dos deputados vota hoje, dia 13 de junho, uma medida polêmica da reforma política.

Sinceramente, estou confuso. Por que, sempre que esquemas de corrupção vêm à tona, nossos representantes tocam na questão da reforma política? Por que não concentrar esforços para punir os criminosos apontados pelas investigações e, somente depois, abrir uma ampla discussão com a participação de toda a sociedade sobre a reforma política, que é tão complicada?

Foram as questões levantadas acima que me motivaram a escrever este texto para pedir, encarecidamente, a atenção dos eleitores brasileiros. Muita atenção. Bastante atenção ao primeiro item da reforma política que será votada hoje pelos deputados. A Câmara discutirá o voto em lista fechada. Se aprovada, o eleitor não votará mais no candidato, mas, sim, no partido. Todo mudo sabe que no Brasil a maioria dos eleitores não tem afinidades com o partido. Boa parte das pessoas não está nem aí para as ideologias da legenda. O pior é que os brasileiros estão corretos. Afinal, recentemente, os partidos são farinhas do mesmo saco. Comunistas apóiam liberais, democratas e vice-versa. Sem contar os inúmeros vira-casacas.

A reportagem de Solano Nascimento, publicada hoje no Correio Braziliense, revela que a profissão político continuará valendo a pena, se o voto em lista fechada for aprovada. Pois, quem investiu na carreira e se elegeu, ficará no início da lista, caso resolva se candidatar novamente. Os votos dos eleitores irão para os primeiros da lista, garantindo assim a permanência dos deputados eleitos. Esse fato é uma prova de que nossos representantes farão a reforma, tão desejada por vários segmentos da sociedade, mas com medidas a favor deles. Quer dizer, o que seria feito para acabar ou diminuir a corrupção, pode, na realidade, piorar a roubalheira.

Após a aprovação do voto em lista fechada, o próximo passo será a implantação do financiamento das campanhas políticas com o dinheiro público. É isso aí. O dinheiro que falta para a educação e para a saúde será aplicado na campanha.

Quem escreve este artigo carrega a ignorância dos demais brasileiros. Portanto, por questões de clareza, os eleitores devem exigir dos deputados mais transparência e menos pressa. A sociedade tem que participar das discussões. De preferência, realizada depois que o mar de lama da corrupção for retirada da Esplanada dos Ministérios e da Praça dos Três Poderes.

terça-feira, 12 de junho de 2007

A tragédia de Rali (II parte)



Meu nome é Raliosvaldo Bertolo Jásintocabeção Arrudiando Novagina Maciano Cretino Corruptativo Nomequenãoacabamais Stanislau Lalau Lulala Depoisdenósénósdenovo... Ufa! Cansei. Eu, que sou dono do nome, ainda não peguei fôlego, o que dizer do leitor? Perdoa-me, caro amigo. Não me atreverei a repetir tamanho palavrão. Citarei somente minha alcunha, Rali, como fiz na primeira parte da história.

Nasci em 1989 no hospital do Gama. Antes de me mudar para a invasão da Vila Estrutural, minha família e eu morávamos de aluguel em um barraco caindo aos pedaços na cidade-favela mais populosa do Distrito Federal, a Ceilândia. Digo cidade-favela porque, oficialmente, Ceilândia é conhecida como cidade-satélite, mas a realidade é bem diferente. Altos índices de violência, muita pobreza, algumas ruas ainda sem asfalto e sem coleta de esgoto. Portanto, com todas as letras, cidade-favela Ceilândia.

Bom. Quero narrar neste capítulo minha meninice. Sempre fui um garoto lesto. Alguém aqui sabe que diabos quer dizer lesto? Não me lembro aonde foi que ouvi ou li esta palavra. Mas achei muito bonita. Entretanto, confesso, lesto leitor, não sei o que significa. Isso é o que dá cursar só até a sexta série do ensino fundamental. Já que comecei a falar de formação escolar, contarei meu primeiro dia de aula.

Por sorte, quando eu tinha sete anos, minha mãe conseguiu vaga na única escola da Vila Estrutural. Ela, coitada, freqüentou a sala de aula por três dias. Aprendeu somente a escrever o nome. Minha mãe foi criada no nordeste mineiro, em uma fazenda. Ela não teve a oportunidade de conhecer os pais. Primeiro porque a mãe dela nem sabia quem era o pai da minha mãe. Segundo porque a mãe de minha mãe não resistiu ao parto quando minha mãe nasceu. Você entendeu? Para eu não ficar escrevendo coisas do tipo “mãe de minha mãe”, estimado leitor, informar-te-ei as graças delas. Mas não se assuste, não colocarei o nome completo. Minha velha se chama Bertola e minha avó, Jásintacabeçona.

Jásintacabeçona teve 15 filhos. Bertola, como eu, é a caçula. Ela foi criada pelos irmãos, que não permitiram minha mãe estudar. Bertola conseguiu a independência depois que se casou com meu pai. Eles mudaram do nordeste mineiro, depois de terem o sexto filho, para tentarem a sorte aqui, no DF. Sou o único brasiliense. Apesar de ter nascido na periferia, em uma também cidade-favela, auto me denomino brasiliense. É uma das poucas vantagens de morar próximo à capital do país. Nasci no hospital do Gama porque peguei minha mãe de surpresa. No dia, ela visitava a irmã, moradora do bairro do Pedegral, no Novo Gama – GO. Os moradores de lá não freqüentam ao hospital fantasma do Novo Gama, que teve R$ 315.842,05 aplicados na aquisição de equipamentos e moveis, segundo a síntese do relatório de fiscalização da Controladoria-Geral da União datado no dia 15 de outubro de 2005.

Prometi no terceiro parágrafo que ia contar meu primeiro dia na escola. Não o fiz porque ele não existiu. Não fui à primeira aula por falta de material escolar. Depois de uma semana, consegui um caderno usado e um lápis da ponta quebrada. Minha professora era linda, mas o que marcou o início de meus estudos foram os lanches. Saia de casa com a barriga vazia. Contava os minutos até a hora do intervalo para poder sacia-la. No melhor dia, pão com ovo e suco eram servidos.

Nunca fui bom com essas coisas de escola. Pensei que não ia sair da primeira série. Reprovei quatro vezes. Minha salvação foi a política de educação implantada na época pelo governo. Pude passar de série devendo matérias. Sem contar que, da primeira série, fui para a quarta, que reprovei mais duas vezes. Depois me jogaram para a sexta, de onde não sai mais. Se não me engano, o nome do programa era “Aceleração Escolar”.

Meus pais eram catadores de latinha, não tinham dinheiro para comprar brinquedos para mim. Mas sempre fui muito criativo. Alguns pedaços de madeiras se transformavam em carrinhos, robôs, espadas, revolveres...

Quando eu completei quatro anos de idade, conheci João, meu melhor amigo. Ele me ensinou todos os palavrões. Minto. Aprendi com ele a metade. A outra meus pais me ensinaram. Alcoólatra, meu pai vivia xingando minha mãe. Presenciei muitas brigas deles. Portanto, também aprendi a dar pontapés e socos.
Como você pode ver, leitor, a minha tragédia foi ter nascido...


Continua...

sexta-feira, 8 de junho de 2007

A tragédia de Rali (I Parte)


Foi de repente. Não acreditei que estava acontecendo comigo. Afinal, era tão jovem, tão forte, ágil, inteligente. Pensava até que era invencível. Mas... agora... agora estou estendido no chão como uma mosca esmagada por um tapa. Minhas vistas já não são as mesmas. Não consigo enxerga bem o que vejo. Parece uma estrela. Brilha serena. Paz. É o que sinto ao fitá-la constantemente. Sim, é muito bonita... ela... ela... desapareceu! Mas surgiu outra! Não! Minto. Surgiram duas. Uma no mesmo lugar. A outra, um pouco mais afastada. O Brilho delas são tão intensos quanto a primeira suposta estrela. Meu estado de espírito está em êxtase. Nunca senti sensação tão boa. Justamente agora. Por quê? Não entendo. Ei! Ambas também sumiram!! Apareceram novamente... não... sumiram! Reapareceram! A cena está se repetindo. Percebo também que as supostas estrelas deixam rastros de onde surgem. Os rastros parecem veias de um ribeirão. Porém, de onde elas vêm, não há semelhança com uma nascente. Mas, sim, com um lago de sangue. Um lago para cada suposta estrela. Cada um parece possuir uma ilha redonda no centro. Uma ilha verde. Um verde que só vi em um lugar. Já vi esse verde nos... não! Não pode ser! São os olhos de minha mãe. Agora entendo. O que seriam as supostas estrelas que me passam a sensação maravilhosa são as lágrimas penduradas no rosto da minha velha. Minhas vistas melhoraram no instante que minha face se tornou úmida com as lágrimas que começaram a escorrer intensamente. Ao ouvir os disparos dos tiros, minha mãe veio correndo da cozinha. Só que... ela chegou tarde de mais. Já não pode fazer mais nada. Apenas chorar...

Não estou conseguindo ver mais nada. Ouço apenas o choro da minha mãe. Não vejo mais nada. O barulho perdeu o volume. Está baixo. Baixinho. Não o escuto mais. Tudo é breu. Será que morri?

- Rali! Levanta daí, menino.
- Sim, mamãe.

Não entendo como fui parar de baixo da mesa. Já sei. Meu amigo João estava brincando comigo de pique-esconde. Ele demorou me encontrar. Acabei adormecendo. Onde ele está? Não me escondi em um lugar tão difícil assim.

- Mamãe, a senhora viu se o João passou por aqui?
- Ah! Rali! Ele já foi embora. Foi dormir. Já está na hora de você ir para a cama também, menino.
- A não, mãe. Eu não estou com sono.
- Claro que está, menino. Se eu não tivesse te acordado, você passaria a noite de baixo da mesa. Vai dormir, anda logo. Você só tem cinco anos. Não pode ficar a noite inteira acordado. Já está mais do que na hora de dormir.

Não restou outra coisa. Tive que obedecer minha mãe. Achei que ela estava errada. Percebi que não. Mal encostei a cabeça no travesseiro, apaguei.

- Vambora, bando de filho da puta!! Passem todo dinheiro. Não estou de brincadeira. Gritava o meu amigo João com o dono e os funcionários da padaria “Pão no Forno”, que fica a alguns quarteirões da minha casa. Não era mais uma das minhas brincadeiras de meninice com João, apesar de ele ter 14 anos e eu 13.

Enquanto ele ameaçava o dono da padaria com o revólver calibre 38, eu recolhia o dinheiro do caixa. Minhas mãos estavam tremulas, as de João, firmes. Ele parecia está acostumado. Eu assaltava pela primeira vez. João um dia me disse que roubava porque gostava de sentir emoção ao apontar um revólver e fazer ameaças. Depois de um tempo, quando me acostumei, passei a sentir também o que ele sentia. Sempre conseguíamos fugir com uma boa grana antes da polícia chegar e nos prender. Naquele dia não foi diferente, fugimos com R$ 457. Dinheiro que foi suficiente para garantir o pó e a maconha de um mês...

...Natasha suspirava ofegante. O cheiro dela tinha semelhança com o de uma rosa, porém, intenso, presente, forte, marcante. Os seios não eram grandes. Quando eu encostava minha boca, em um deles, quase desaparecia por completo. Minha mão deslizava do outro seio até a barriga de Natasha. De lá seguiu para baixo. Percebi que não era a primeira vez dela. Fiquei com receio de não dar conta do recado, já que eu nunca tinha transado. Mas foi só no começo. Natasha percebeu minha inexperiência. Resolveu tomar o controle da situação e botar em prática tudo que aprendera nos 16 anos de vida. Parece pouco, mas ela realmente sabia muita coisa. Até demais para uma garota da idade dela. Já eu não sabia nada, pois estava com 14 anos. Mas graças a Natasha, minha primeira vez foi inesquecível. Tanto que foi uma das cenas que revi em minha mente como um filme e agora descrevo para você, amigo leitor. Depois do breu, surgiu dentro da minha cabeça uma espécie de flash back da infância que tive até este momento final da minha vida. Onde estou nos braços da minha mãe, agonizando e esperando a morte chegar...

Continua...

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Imparcialidade, tremenda marmelada


Desde que entrei na faculdade ouço dos professores que o bom jornalismo deve se aproximar o máximo possível da imparcialidade. Alguns profissionais mais iludidos afirmam com todas as letras que uma boa reportagem é totalmente imparcial. No Brasil, quase todos os veículos insistem em dizer nos editoriais que não tomam partidos e que são isentos. Os repórteres não são diferentes, pelo menos a maioria. Batem o pé e dizem, sem hesitar, que escrevem matérias imparciais. Onde o blogueiro quer chegar com isso? O apressado leitor deve estar se perguntado. Aconselho que os textos deste blog devam ser lidos com paciência, porque eles não são do tipo jornalístico que já no primeiro parágrafo há as respostas das perguntas quem? Quando? O quê? Como? Onde? Por quê? Ainda bem que neste espaço posso fugir dessa formatação bastante funcional, pois realmente informa, mas, ao mesmo tempo, é hipócrita quando acompanhada da afirmação de que determinado texto informativo é imparcial ou se aproxima da imparcialidade.

O leitor atento já deve ter percebido o mote deste artigo. Para quem ainda não percebeu, afirmo que é impossível a imparcialidade e a isenção total de uma matéria jornalística. E o texto que boa parte dos jornalistas diz que se aproxima da neutralidade é na realidade um texto que consegue enganar o leitor. Muitas pessoas acreditam que os meios de comunicação reproduzem a realidade fielmente. Não fiz nenhuma pesquisa para dizer isso. Deixo claro ao meu estimado leitor que esta coluna não é um estudo com fortes argumentos científicos. A intenção dela é levantar uma questão para discussão. Quem quiser comprovar a veracidade dos argumentos está desimpedido de realizar uma pesquisa, que depois de feita, por gentileza, informe-me o resultado. Apesar de não fazer estudos concretos, uso o método da abdução para escrever este texto.

Da escolha de uma pauta até a edição de uma matéria jornalística há parcialidade. Primeiro porque nem tudo que acontece, por exemplo, no Brasil é noticiado. Existem muitos fatos acontecendo por aí e não viram noticias porque não há espaço suficiente e porque ninguém agüenta tanta informação. Não conseguimos nem ao menos acompanhar a pequena parte das notícias publicadas, imagine se todos os acontecimentos fossem publicados.

A determinação do que será notícia é opinativa e envolve questões ideológicas. A escolha da informação mais importante que entra no primeiro parágrafo, também. Da mesma forma o que é escrito no título e no sutiã. As aspas de um entrevistado servem para o jornalista tirar o dele da reta. Quando o repórter escreve no texto fulano disse “O governo é uma merda” entre aspas, é na verdade o que ele queria dizer. Se ele não quisesse dizer isso, simplesmente não colocaria.

Para uma reportagem ser imparcial, ela não deveria ter título. Possuir somente uma linha. A entrevista realizada com uma fonte tem que ser citada na íntegra. Todos os fatos devem ser noticiados. A manchete tem que deixar de existir porque o critério de escolha do que é mais importante também é parcial. E, por fim, a matéria não pode ser feita, em hipótese alguma, por um ser humano. Ela tem que ser realizada por um ser com a capacidade de absorver todas as informações ao redor, não deixar passar nenhum detalhe, nem uma agulha que esteja no chão, por exemplo. Obrigatoriamente, o repórter tem que ser frio, insensível, sem valores. Enfim, uma criatura que não é influenciado pela cultura humana ou pelo meio social que ela está inserida. Se uma notícia fosse feita com esses critérios, seria incompreensível. E, como não existe nenhum ser com as características descritas acima, concluo que é impossível se quer se aproximar da imparcialidade.

Defendo, portanto, que todos os meios de comunicação deixem claro que são parciais. Dessa forma estará sendo honesto com o leitor. No ano passado, a revista Carta Capital deu um exemplo que deveria ser seguido pelos demais meios noticiosos. Mino Carta escreveu no editorial a preferência da revista pelo então candidato a presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Atitude que demonstra respeito pelo público que acompanha as notícias da revista.

Enfim, estimado leitor, é isso que defendo no jornalismo. Mas quem sou eu para mudar um sistema que favorece muitos endinheirados? Não sou nada, mas os leitores sim. Vocês podem muito bem mudar o quadro. Não é fácil, mas também não é impossível. Para realizar a mudança, os leitores têm que observar com olhar crítico a cobertura realizada pela imprensa. Observar a procedência dos anúncios veiculados nos meios. E boicotar o veículo que estiver sendo desonesto. Repito, não é fácil. Mas temos que tentar.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Convite à reflexão


Gente. Sempre ouvi boatos de que a imprensa brasiliense atualmente é comprada pelo Governo do Distrito Federal, independentemente do governador em exercício. Portanto, resolvi fazer uma análise. Ela não servirá como prova ou denúncia de um crime. Mas, sim, para reflexão. Com esse comentário da cobertura da imprensa local, desejo apenas que, você, caro leitor, reflita antes de votar em um determinado político.

Vocês já devem ter ouvido por aí que, para saber se um determinado bolo é bom, não precisa come-lo inteiramente. Basta apenas um pedaço. Parto desta idéia. Não vou analisar todos os jornais que circulam em Brasília, mas o mais conhecido, o Correio Braziliense. Não colherei informações de todas publicações, apenas da de hoje, 6 de junho de 2007. A pauta será também somente uma: a viagem do excelentíssimo governador, José Roberto Arruda, à Europa para definir os trens urbanos do DF. Agora, demonstrado meus critérios de avaliação, vamos ao estudo.

O Correio Braziliense é conhecido por ser bonitinho. Já foi premiado muitas vezes pela diagramação criativa e bastante esclarecedora. Na matéria de hoje, não foi diferente, por isso, avalio a ilustração do texto escrito pela senhora Lilian Tahan com um saboroso dez. Destaco que não conheço a repórter enviada para cobrir o governador. Para falar a verdade, nunca a vi. Nem sei se ela é uma senhora. Uso o termo por questões de educação.

Já a reportagem escrita por Lilian não merece a mesma nota da diagramação. Antes do meu estimado leitor se questionar: quem é esse sujeito para sair avaliando o trabalho de uma profissional tão competente, ressalto que boa parte do conteúdo deste blog é opinativa. Convido ao leitor que leia também o texto da repórter. Se achar que foi injusto com ela, avise-me por favor com um comentário abaixo deste texto. Se for convincente, retiro o que digo.

Então. Por que a reportagem de Lilian Tahan não merece dez? Porque a matéria dela parece com um press release. Isso mesmo. Um texto realizado por uma assessoria de comunicação. Pois ele não cita nenhuma outra fonte que não seja do GDF. A repórter poderia procurar, por exemplo, algum técnico ou especialista para fazer uma avaliação ou um comentário dos modelos de trens urbanos que o nosso governador deseja trazer para o DF. A matéria de Lilian Tahan só diz maravilhas da empreitada do governador. Não que não seja. Mas, para ser legítima, poderia pelo menos consultar alguém de lá sobre os trens. Com isso, passaria a certeza de que Arruda não estaria... como é mesmo aquele ditado popular? Ah! Já sei. A senhora Lilian Tahan mostraria que o governador não estaria “trocando gato por lebre”. A nota que dou é zero!! Tadinha, gente. Acho que fui muito radical. Vou dar 0,5. Afinal ela é uma profissional competente.

Agora, convido o leitor a mais uma reflexão. Na mesma edição do jornal. Para ser mais preciso, na página sete há um anúncio do GDF – antes que eu me esqueça, a reportagem de Lilian Tahan está na página nove com o título “Três eixos para os trens urbanos”. É ou não é uma enorme coincidência? Para ajudar em sua reflexão, querido leitor, forneço-te mais informações da publicidade. A propaganda mede 156 cm/col. O centímetro por coluna (cm/col) é a unidade usada para calcular o valor de um informe publicitário. Segundo a tabela de preços do Correio Braziliense em vigor a partir de janeiro de 2006, 1 cm/col em uma página no formato standard do primeiro caderno equivale a R$ 159. Se a propaganda for colorida, acrescenta-se 30%, ou seja, R$ 47,7. A tabela informa também outros pormenores que aumenta o valor do cm/col, mas não usarei. Desculpe leitor, pela ignorância. Entretanto, com as informações acima, posso te dar a noção de quanto custa, mais ou menos, o informe publicitário publicado pelo GDF. Sem mais delongas, R$ 32.245,2.

Não quero com isso dizer que o GDF comprou o Correio Braziliense. Afinal, não tenho provas concretas. Mas quero, sim, convidar o leitor a refletir em tamanha coincidência.