Blog do Paraíso

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A eleição para conselho tutelar será uma tremenda mamata


A eleição para escolher o conselho tutelar das cidades do Distrito Federal (DF) acontecerá no próximo domingo (4) com irregularidade e muita dificuldade para o eleitor. Nem a própria Comissão dos Direitos da Criança e do Adolescente (CDCA) seguiu suas próprias regras. Não será, portanto, mera coincidência se houver muita bagunça e fraude no processo.

Em 30 de março de 2009, foi publicado no Diário Oficial do DF (DODF) a resolução 30 de 2009 da CDCA que determinava, no artigo 8º, a publicação dos locais de votação, 45 dias antes da realização da eleição dos conselhos tutelares. A lista com os locais, contudo, foi publicada no DODF em 24 de setembro. O CDCA, portanto, não seguiu uma regra criada pela própria Comissão.

A desorganização da eleição para conselho tutelar não se restringe apenas ao descumprimento das regras. Houve diversas mudanças que tornaram o processo mais complicado.

Além de ter antecipado o dia de votação, antes marcada para o dia 13 de outubro, o CDCA mudou os documentos necessários para o cidadão participar do eleitoral. Antes, o eleitor teria que comprovar sua residência para votar em um candidato de sua comunidade. Agora, ele precisa do título de eleitor e só pode votar na sua seção eleitoral. Em outras palavras, quem mora hoje em São Sebastião terá que ir a Ceilândia, se sua seção for lá.

Não bastassem o descumprimento e as mudanças sucessivas de regras, a eleição não será com urna eletrônica. O eleitor vai ter que pegar uma senha com o mesário; dirigir-se a um computador; digitar o número do título de eleitor e a senha; por fim, votar, digitando o número do candidato.

Muita gente desacostumada com o mundo digital ficará de fora. E tem mais. Se com as modernas urnas eletrônicas há diversas suspeitas de fraude, o que esperar de um computador qualquer? A eleição para conselho tutelar das cidades do DF, portanto, será uma tremenda mamata.

domingo, 27 de setembro de 2009

A movimentação de candidatos ao GDF


A disputa pelo Governo do Distrito Federal (GDF) se dará somente em 3 de outubro de 2010, todavia, há uma intensa movimentação de candidatos nos bastidores. Até o mês de julho, tinha-se um quadro. Agora, as coisas já são diferentes e ainda podem mudar.

Antes, o ex-governador Joaquim Roriz estava no PMDB, querendo ser candidato ao GDF; o deputado federal Geraldo Magela (PT) e o ex-ministro do Esporte Agnelo Queiroz (PT) travavam ferrenha luta pela indicação do Partido dos Trabalhadores para disputar o cargo de governador; também antes, pairava a dúvida de que o atual chefe do executivo local, José Roberto Arruda (DEM), cumpria ou não o acordo acertado, em 2006, com seu vice Paulo Otávio (DEM) – o combinado era Otávio ser candidato a governador e Arruda seu vice em 2010 –?

As mudanças vieram no decorrer dos dois últimos meses. Agora, Roriz já não faz mais parte do PMDB; Magela sinaliza um acordo com Agnelo, onde ele se candidataria ao senado e Queiroz ao GDF; e Arruda já deu sinais de que não cumprirá o acordo que – imagino – apenas Paulo acreditava que seria honrado.

Com as mudanças, Roriz, ao deixar o PMDB, enfraqueceu, pois perderá tempo de TV e não contará com a logística do maior partido do Brasil. Já Arruda ganhou e perdeu com a saída do ex-governador do PMDB. Ganhou porque a aliança com os peemedebistas ficou mais evidente e consolidada. Perdeu porque a desfiliação de Roriz prova que sua candidatura ao GDF é para valer. O único que apenas ganhou, com as mudanças, foi o PT. Um provável acordo entre Magela e Agnelo uniria o Partido em boa hora, o que daria tempo para fortalecer a candidatura do ex-ministro do Esporte. O PT ganhou também com a confirmação da candidatura de Roriz ao GDF. Boa parte dos votos de Roriz será tirada do atual governador.

Apesar das mudanças, um fato ainda permanece: os protagonistas do pleito de 2010 continuam os mesmo. Acredita-se que a disputa maior se dará entre Roriz, Arruda e o candidato do PT (provavelmente, Agnelo). Fato que pode levar a disputa para o segundo turno.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O trem do VLT, a propaganda, o GDF e a corrupção


O trem do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que está exposto no Setor Comercial Sul de Brasília, deve ser eleito o símbolo do Governo do Distrito Federal (GDF), hoje, sob o comando do governador José Roberto Arruda (DEM).

Assim como o GDF, o trem, aparentemente, é moderno, organizado e eficiente. Mas só aparentemente, porque, na realidade, ele não sai do lugar. Não avança. Não é eficiente. Serve apenas para criar expectativa no povo. Serve apenas para ludibriar o povo, enfim, é uma mera propaganda que maquia a triste realidade do transporte público do Distrito Federal.

O GDF é isso. Uma propaganda. Contudo, os problemas no DF caminham para uma situação tão grave que está se tornando impossível maquiá-los. A propósito, o jornalista Leandro Fortes escreveu nesta semana sobre um fato que ilustra bem isso. De acordo com Leandro, em 16 de julho, o governador Arruda e o secretário de Saúde, Augusto Carvalho (PPS), em mais um “lance de marketing”, entregaram, com um valor de 3 milhões, 30 kits de equipamentos para as Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) do sistema de saúde local. A verdade, todavia, veio à tona poucos dias depois. O Ministério Público revelou que a compra era falsa. Os 30 kits, na verdade, eram usados e emprestados por 90 dias.

O mais deprimente e desanimador é que este fato, e muitos outros referentes ao caos na saúde pública, pode não ser investigado, principalmente depois de o governador Arruda enquadrar os deputados distritais para barrar as já instaladas Comissões Parlamentares de Inquéritos (CPIs) Digital e da Saúde. Conforme a jornalista Paola Lima escreveu em seu blog, Arruda se reuniu com os deputados distritais na terça-feira (15) retrasada para tomar a decisão “meramente política” de acabar com as investigações.

Se não fosse a subserviência dos parlamentares distritais governistas, as CPIs Digital e da Saúde não seriam suficientes para investigar as suspeitas de corrupção no GDF. Pelo menos, duas outras Comissões deveriam ser criadas. Uma para investigar a compra supervalorizada de um terreno que pertenceu ao atual secretário do Governo, José Humberto Pires de Araújo. De acordo com a última edição da revista Época, o GDF comprou por 4 milhões de reais um lote que, dois anos antes, valia 426 mil reais. O lote teve, em apenas 24 meses, uma valorização de 1000 por cento.

A outra CPI seria criada para verificar se o GDF, realmente, contratou por 9 milhões um empresa de fachada para a realização, no início deste ano, do amistoso entre Brasil e Portugal, ocasião em que o estádio Bezerrão do Gama foi reinaugurado.

O terreno superfaturado e a suposta empresa de fachada do amistoso são mais dois fatos que precisarão de muita propaganda. Tudo para maquiar o GDF e deixá-lo como o trem do VLT em exposição no Setor Comercial Sul de Brasília. Bonitinho. Certinho. Limpinho. Porém, de mentirinha.

Foto: Mary Leal

terça-feira, 22 de setembro de 2009

“Rock in Taguatinga” dá continuidade a turnê “Brasília 50 anos, Capital do Rock”

Há tempos, Brasília é conhecida por ser a capital do rock no Brasil, porém, muitos acreditam que a cidade está perdendo esse título. Um grupo de roqueiros, contudo, está promovendo no Distrito Federal uma turnê de shows justamente para evitar que Brasília perca o título. “Brasília 50 anos, Capital do Rock” é como eles chamam a iniciativa que já passou por Ceilândia e chega, a partir das 14h 30 do próximo sábado (26), à Praça do Relógio com o show “Rock in Taguatinga”.

Conheço a rapaziada, inclusive, eles me disseram, recentemente, que estão abertos a receber o apoio de patrocinadores para arcar com as despesas de logística. Se eu fosse empresário do seguimento, apoiaria porque, além da causa ser justa, a turnê alcançou bom resultado no “Rock in Ceilândia”, ao receber um público de mais de mil e quinhentas pessoas.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Não é possível a aprovação de projeto de lei de iniciativa popular


O Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) conseguiu mais de 1,3 milhão de assinaturas de eleitores de todo o Brasil, porém, todo esse trabalho pode ter sido em vão.

Apesar do número de assinaturas ser suficiente para a criação do projeto de lei que proíbe a candidatura de políticos com a ficha na justiça suja, o Regimento Interno da Câmara possui regras que tornam impossível a criação de leis de iniciativa popular, o que não é nenhuma novidade.

Em novembro de 2008, denunciei aqui neste blog o ardil do Regimento Interno na série de comentários chamada O Parlamento do Brasil. Se os integrantes do MCCE tivessem lido, eles teriam criado um movimento para obrigar, primeiro, os deputados e senadores a fazer uma reforma política descente.

Naquela época, escrevi que, de toda a história da Câmara dos Deputados, nunca um projeto de iniciativa popular foi aprovado. Houve três tentativas; a mais conhecida foi da noveleira Glória Perez. Depois de ter a filha e atriz Daniela assassinada, Glória, indignada com a brandura da punição dos criminosos, decidiu apresentar um projeto de lei de iniciativa popular que desse penas mais duras aos homicídios qualificados.

Assim como o MCCE, a noveleira conseguiu a façanha de coletar o número de assinaturas suficientes para a criação do projeto, porém, era necessário conferir se as assinaturas atendiam as exigências do Regimento Interno da Câmara. De acordo com o documento, o número de assinaturas deve representar um centésimo “do eleitorado nacional, distribuído pelo menos por cinco Estados, com não menos de três milésimos dos eleitores de cada um deles,” e cada assinatura tem que estar acompanhada de “nome completo e legível, endereço e dados identificados de seu título eleitoral”.

Será que a Câmara tem corpo técnico capaz de analisar 1,3 milhão de assinaturas, uma por uma? Quanto tempo o trabalho duraria? Essas duas perguntas ainda não foram respondidas aos brasileiros, nem quando Glória Perez tentou criar o seu projeto de iniciativa popular.

Como muitos sabem, nem por isso, o trabalho de Glória foi em vão. Surgiu um deputado que abraçou a causa e apresentou, em seu nome, o projeto de lei que deveria ser de iniciativa popular.

Contudo, prezado leitor, eu me questiono: será que existe algum deputado para abraçar a causa do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral?

Para não ser pessimista, suponhamos que surja um parlamentar que queira apresentar um projeto a partir da causa do MCCE; o que aconteceria? Não seria aprovado.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Fica, Sarney!!


E o Sarney (PMDB-AP), gente? Vai ficar mesmo na presidência do Congresso Nacional? Olha, pensei que ele iria ter o mesmo destino de Renan Calheiros (PMDB-AL), que teve que renunciar, em 2007, à presidência do Sanado depois de ficar seis meses enfrentando uma enxurrada de notícias de corrupção envolvendo o seu nome.

Recentemente, José Sarney enfrentou um período de notícias negativas até maior – foram sete meses! –, contudo, está tudo quieto. Não há mais nenhuma denúncia de corrupção contra o senador, principalmente, depois do jornal O Estado de S. Paulo ser censurado pela (in)justiça, após ação do filho do ex-presidente da república, o deputado Fernando Sarney (PMDB-AP).

Se Sarney saísse da presidência do Congresso, a direita neoliberal seria a maior vencedora. Por enquanto, ele ainda está lá, votando com o governo. E, como sempre, quem perde, com a permanência ou saída de Sarney, somos nós, o povo brasileiro.

Perdemos porque José Sarney não vai pagar pelos crimes denunciados pela imprensa direitista, repito, mesmo se renunciar à presidência do Senado - veja o caso de Renan; renunciou e até agora não foi punido -. E, como sou contra os demotucanos e a favor do governo Lula, acho que Sarney tem mais é que ficar mesmo.

Mas, se este país fosse sério mesmo, e existisse a possibilidade de José Sarney ir para a cadeia, eu não queria nem saber se ele votava a favor ou contra o governo. Eu iria “às ruas” protestar com o pequeno grupo daqui de Brasília do #forasarney.

Infelizmente, a justiça brasileira ainda não chegou a tal nível, portanto, fica Sarney. Não saia para satisfazer o desejo da direita neoliberal. Fique e agilize a votação do novo marco regulatório do pré-sal.

domingo, 13 de setembro de 2009

A partilha dos royalties do pré-sal e as eleições de 2010


A discussão da partilha, entre os estados, dos royalties do petróleo que será extraído da camada do pré-sal vai além da questão de Estado. Assim como em quase todas as decisões importantes tomadas neste país, a política é a questão principal na discussão da partilha dos royalties.

Diz-se que, para evitar desgaste com os eleitores do Rio de Janeiro (RJ), Espírito Santo (ES) e São Paulo (SP), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quer adiar para 2011 a definição da percentagem que os estados receberão dos royalties do pré-sal. A medida, de quebra, também beneficiaria o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), pois, assim, ele, que é aspirante a presidente do Brasil, não se desgastaria com os eleitores.

Como se pode ver, não é uma situação muito fácil de resolver, ainda assim, me arrisco a opinar sobre o assunto. Acho que o presidente Lula está com a razão em querer adiar a definição da partilha dos royalties do pré-sal. Se ele deixasse para definir isso já em 2010, haveria a grande possibilidade de se desgastar com os eleitores de RJ, ES e SP, e, por outro, se fortalecer nas demais regiões do país, principalmente, onde ele já é forte: no Nordeste.

Se o presidente Lula quer, realmente, fazer o seu sucessor(a), o ideal mesmo é buscar votos onde não tem. Logo, é uma boa estratégia não desagradar os eleitores de São Paulo, pois é justamente lá que a candidatura de Dilma Rousseff precisar ser bastante trabalhada, afinal, quem governa lá é um tucano e provável adversário do PT no pleito presidencial de 2010.

sábado, 12 de setembro de 2009

Argumento que defende a expansão do DF não tem fundamento


Veio à tona, nos últimos dias, uma ideia de aumentar o território do Distrito Federal (DF), incorporando seis municípios goianos ao DF. O principal argumento: melhorar as condições de vida dos municípios de Águas Lindas, Valparaíso, Cidade Ocidental, Novo Gama, Santo Antônio do Descoberto e Planaltina de Goiás, que sofrem pelo abandono e pela má administração do governo de Goiás.

Avalio que a ideia deve ser discutida para ser justificada, porque o principal argumento que a defende não tem nenhum fundamento. Se os municípios do entorno, como são chamados, possuem, por exemplo, uma taxa de desemprego elevada e, portanto, seus moradores buscam vagas oferecidas no DF, isso não é problema do Governo do Distrito Federal (GDF). Quero dizer, problema para ser resolvido pelo GDF, porque é um problema para quem mora na Capital e tem que disputar as vagas com quem vem do entorno. Enfim, o que quero dizer é que, quem tem que resolver a falta de oportunidade de serviço nos municípios goianos, é o governo de Goiás.

Tem que ser assim, afinal, o governador de Goiás, Alcides Rodrigues (PP), os deputados estaduais e as administrações das prefeituras foram eleitas para isso. Se não for assim, quero dizer, se ficar provada a total incompetência deles, deve-se incorporar ao Distrito Federal todo o estado de Goiás e não apenas os seis municípios do entorno.

Aliás, se for provado que o GDF é tão competente assim, por que não incorporar ao DF todos os estados Brasileiros?

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Capítulo XVI

A cor cinza, que não está presente no lápis, na tinta e, nem mesmo, nas cinzas de carvão, estava presente no céu, mais precisamente, nas nuvens. Na verdade, era um cinza não muito cinza. Um cinza diferente. Um cinza incomum.

As nuvens não estavam como se um temporal haveria de acontecer. Muito menos, como se a tempestade tivesse acabado de passar. Elas estavam com aquele cinza diferente.

O ar estava bastante úmido. Ele era carregado por uma brisa bem refrescante. As poucas árvores presentes naquela tão badalada rua tinham em suas folhas gotas de chuvas, que estavam lá como se tivessem encontrado uma hospedaria cinco estrelas.

O dia, enfim, por coincidência ou não, era ideal para se fazer uma visita ao cemitério, onde Jacinto, agora, descansava em baixo da terra. O seu velório acontecera há uns nove meses. Ele fora baleado com três tiros, enquanto ouvia música, na calçada, com os seus amigos Marciano, Hamixiaire, Tião, Camila e Bruna.

Por pouco, Tim Maia não fizera mais vítimas. A sorte de Tião, o principal alvo, foi que a pistola engasgou, por um instante, logo após Tim Maia parar o carro e colocar o braço para fora com a arma. Os poucos segundos de falha foram suficientes para Tião se esquivar. Tim Maia, para não perder a viagem, escolheu um novo alvo, para o azar de Jacinto, que levou um tiro no peito esquerdo e dois na barriga. Ele não morreu na hora. Jacinto suportou os ferimentos até uma ambulância chegar, o socorrer e ir a caminho do hospital. Antes de chegar lá, porém, Jacinto deu seu ultimo suspiro.

Houve muita comoção na quadra inteira, pois Jacinto era um cara que falava com todo mundo e não tinha má querência com ninguém. Tião e Marciano ficaram muito revoltados, afinal, sabiam muito bem que Jacinto não devia nada para morrer daquele jeito.

- Sua morte não será em vão!!

Antes mesmo de dizer isso, Tião, acompanhado de dois comparsas dentro de um carro, foi, na mesma noite do dia do homicídio, bater na porta da casa de Pedro. Ninguém veio atender, o que aumentou mais ainda a desconfiança de Tião, que já suspeitava do envolvimento de Bruno.

- Traidor!!

- Tá, tá, tá, tá – disparou contra a casa de Pedro.

Minutos depois de Tião fugir com os comparsas, a vizinhança estava amedrontada. Correu o boato de que a rua estava em guerra. “Tudo porque um rapaz da rua de baixo matou um da rua de cima”, comentou um sujeito, no dia seguinte, numa barbearia. “Quer dizer que agora quem é da parte de baixo não pode subir e quem é da parte de cima não pode descer”, brincou outro, só que dessa vez numa padaria.

Eles estavam certos. A medida mais segura era não cruzar as duas áreas. Tião não iria sossegar enquanto não vingasse a vida de seu colega de esquina.

Marciano, Hamixiaire, Bruna e Camila também ficaram revoltados, todavia, não era da personalidade deles fazer justiça com as mãos. Primeiro porque não precisavam. Tião, com seu arsenal, daria conta do recado. Segundo, eles tinham medo de ter o mesmo destino do seu colega. Marciano, Hamixiaire, Bruna e Camila, contudo, não eram inúteis. Serviam de conselheiros. Davam apoio moral e incentivo para Tião dizendo para ele que era a coisa certa vingar a morte de Jacinto, uma vítima inocente.

Além dos conselhos, os colegas de esquinas foram imprescindíveis no dia do velório, que ficou lotado. Um ônibus foi alugado. Levou todos os conhecidos de Jacinto. A família dele era bastante pobre. Boa parte das despesas do enterro foi paga com a ajuda dos conhecidos.

Foi uma época de muito pesar e medo. Pela primeira vez, a rua deixou de ser tão badalada. Ninguém ficava mais na esquina, principalmente, à noite, quando motoqueiros de capacetes escuros frequentavam, com maior frequência a rua a procura de uma vítima que vingasse a morte de Anastácio. Ele foi cruelmente baleado por Tião, quando trabalhava na sua barraca de cachorroquente. O homicídio acontecera na mesma noite do dia em que Jacinto fora morto. Depois de alvejar a casa de Pedro, Tião não conteve a sua fúria e foi atrás de Anastácio.

Magro, alto e sempre de boné, Anastácio ganhava a vida vendendo cachorroquente numa avenida que ficava um pouco distante da quadra daquela que era uma rua tão badalada.

Anastácio começava o seu trabalho sempre depois das 10h da manhã, contudo, só voltava para a casa depois das 11h da noite. Às vezes, ficava até mais tarde porque sua principal mercadoria, que não era cachorroquente, era bastante procurada depois das 8h da noite. Assim como Tião, Anastácio andava sempre armado e era também traficante de drogas. Inclusive, ele foi morto com uma arma na cintura. Não chegou a disparar contra Tião porque não imaginava que ele seria capaz de lhe matar só por não revelar o paradeiro de Pedro e Bruno. Anastácio era o irmão mais novo de Tim Maia, informação passada pelos conhecidos de Jacinto, com o intuito de contribuir com o trabalho de Tião.

O clima de guerra, portanto, estava instalado na rua que deixara de ser badalada para ser macabra, ainda mais depois que encontraram o corpo de Antônio Augusto, em decomposição, duas semanas depois de morto, no cubículo onde se isolara. Antônio há muito tempo apenas bebia cachaça e não se alimentava. Suas filhas e a sua mulher não lhe procuravam para oferecer um alimento, uma conversa ou um carinho. “Antônio Augusto morreu de desgosto”, diziam uns. “Que nada. Foi a cachaça que o matou”, diziam outros. Apesar da história pesarosa, aparecia sempre uma piada. Alguns vizinhos de Antônio Augusto brincavam dizendo que ele tinha deixado uma carta para a mulher e as filhas. “Vou, mas vou feliz com esse litro de cachaça”, era o que estava escrito, conforme contavam.

Agora viúva, Maria de Lourdes Abadia sentia profunda tristeza e arrependimento de ter abandonado seu marido naquela situação. Como Julieta, Maria decidiu seguir o mesmo destino de Antônio, porém, não usou um punhal, mas, sim, a cachaça. O intento de Maria Abadia, contudo, fracassou porque, diferente de seu marido, ela não ficou isolada. Com medo de perder a mãe, suas filhas não a abandonaram.

Nove meses se passaram e Maria ainda estava viva, porém, alcoólatra. O tempo que passou foi suficiente para trazer a alegria para a rua novamente. Pedro nunca mais apareceu na rua. Mudou-se de mala e cuia. Tião não conseguiu encontrá-lo. Já estava até se esquecendo da história, porém, num dia de nuvens com aquele cinza, a saudade voltou quando a mãe de Jacinto lhe disse:

- Hoje, Jacinto faz aniversário...

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Uribe e a sua ditadura não noticiada pela imprensa tupiniquim


Um absurdo!! A comunidade internacional tem que protestar. Uma coisa dessa não pode acontecer numa democracia que se preze. Como pode um presidente mudar a constituição para ter um terceiro mandato? Desse jeito o país vai acabar numa ditadura. Isso é um absurdo!!

Qual é mesmo o nome do presidente que você está se referindo, José Roberto Paraíso – pergunta-me o meu considerado leitor – ? Hugo Chávez, Evo Morales ou Rafael Correa? Ou será Luiz Inácio Lula da Silva?

Não. Não estou me referindo a nenhum desses presidentes, leitor questionador.

Então... qual?

Ué? Você não sabe? Ah! Já sei. A imprensa tupiniquim não noticiou, com alarde, assim como fez no caso dos presidentes considerados da esquerda. Mas não se preocupe. Eu te digo de quem estou falando.

O presidente que está preste a cometer esse atentado contra a democracia é o colombiano Álvaro Uribe. Na terça-feira (1º), a Câmara dos Deputados da Colômbia aprovou, na tranquilidade da noite, a convocação de um referendo para autorizar um terceiro mandato para Uribe.

Mas... ...por que a imprensa brasileira não deu destaque a essa informação?

Ora, leitor desatento. Você já deveria saber muito bem, afinal, já escrevi, e questionei, aqui, várias vezes o real “lado” dos grandes grupos de comunicação do país.

Mesmo assim, como sou um cara legal, vou responde a pergunta. A imprensa brasileira não criticou, esperneou e destacou a intenção de Uribe em criar um terceiro mandato porque o presidente colombiano faz parte daquele pequeno grupo que os veículos de comunicação estão habituados a defender.

Aaaah! Agora entendi.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O Senado está preste a instituir a censura na internet


Há alguns anos, e ainda hoje, qualquer um, com um computador conectado à internet, pode criar o seu próprio blog e divulgar notícias; emitir opinião; contar histórias; enfim, escrever e publicar o que lhe vier à telha. Para mim, isso é o feto da democratização da informação, tanto no sentido de divulgar, quanto no sentido de colaborar na produção de matérias.

Na quarta-feira (2), porém, as excelências do Senado Federal, mais precisamente, os senadores das Comissões de Justiça e de Tecnologia votaram e aprovaram no projeto de reforma eleitoral um dispositivo que compara, em período eleitoral, a internet com o rádio e a TV. O dispositivo proíbe o blogueiro, por exemplo, de divulgar sua opinião, a favor ou contra, um determinado candidato, partido ou coligação. Se houver entrevista, só se for com todos, senão é proibido. O projeto vai ser votado semana que vem em Plenário.

Amigo leitor, quero fazer uma denúncia contra os senadores tupiniquins, pois eles estão prestes a cometer um crime. Eles estão prestes a abortar o feto da democratização da informação, afinal, a medida é uma censura contra sites e blogs. É um absurdo comparar a internet com rádio e TV. Para se criar um blog, ou um site de notícias, não é preciso influência política e, muito menos, poder econômico, quesitos necessários para se ter uma concessão pública de rádio ou TV.

Estava bom de mais para ser verdade a liberdade de expressão proporcionada pela internet. Incomodados, as excelências querem, agora, acabar com ela.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Lula faz história ao anunciar novas regras do pré-sal


Mais uma vez, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva contribuiu para a sua biografia no livro das pessoas que colaboraram, de forma crucial, para o desenvolvimento deste país. Digo mais uma vez porque o presidente Lula já entrou para a história há muito tempo.

A primeira vez foi muito antes de se tornar presidente, quando militou no movimento sindical e ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores.

A segunda vez foi em 2002, quando foi eleito presidente. Lula, para quem não percebeu, é o primeiro operário a assumir a chefia de estado e de governo de um país.

A terceira vez que entrou para a história foi quando tirou milhares de brasileiros da pobreza.

A quarta vez, depois de alcançar o índice de mais de 80% de aprovação popular, mesmo depois dos impiedosos ataques da imprensa tupiniquim. Acabou? Ainda não.

Lula entrou, recentemente, para a história ao desenvolver uma política econômica que não permitiu o Brasil falir no auge da crise do sistema econômico mundial. Graças a essa mesma política o presidente fez o país ser um dos primeiros a se recuperar da crise.

Foram, portanto, cinco vezes que o presidente Lula entrou para a história, certo? Errado. Nesta segunda-feira, 31 de agosto de 2009, Lula entra, pela sexta vez, para história, ao anunciar as novas regras para a exploração do petróleo encontrado abaixo da camada de pré-sal, há mais de 5 ou 7 km de profundidade do mar.

Por que Lula entra para a história? O que há de mais nas novas regras? Eu respondo, amigo leitor. De acordo com as novas regras anunciadas hoje, boa parte do lucro da exploração do pré-sal vai ser investida em educação, cultura, tecnologia, meio ambiente e combate à pobreza, além disso, o Estado brasileiro vai tomar conta do empreendimento. Isso é uma revolução e uma boa notícia. Mostra que governo aprendeu a lição da crise do sistema econômico mundial: é preciso a maior presença do estado para frear o olho grande dos capitalistas selvagens.

Agora. Imagine se estivéssemos sob a liderança do governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC). Quero dizer, imagine se o presidente da república fosse um tucano ou um demo. Com o perdão da palavra, nós, brasileiros pobres, estaríamos “fudidos” – mais ainda. Se estivéssemos sob a liderança do PSDB e do DEM, as novas regras de exploração do pré-sal, anunciadas hoje, sequer existiriam. Pelo contrário, haveria uma privatização de toda a exploração, afinal, essa é a lógica do governo demotucano. Lembra da Vale do Rio Doce? O que aconteceu com ela? Pois bem. Foi vendida por FHC por um preço que correspondeu ao lucro do ano seguinte da empresa privatizada. Ou seja, a Vale foi vendida a preço de banana. E esse dinheiro? Para onde foi? Confesso. Não faço a mínima ideia.

Ainda bem que não somos governados por eles. E, em 2010, precisamos evitar que o PSDB e o DEM voltem para o poder Executivo, se quisermos realmente que o lucro da exploração do pré-sal vá mesmo para a educação, cultura, tecnologia, meio ambiente e combate à pobreza.

domingo, 30 de agosto de 2009

GDF arranca placas com informações sobre as obras do PAC no DF

O Distrito Federal (DF) se tornou, nos últimos anos, um verdadeiro canteiro de obras, o que quer dizer que o governo do DF está trabalhando muito. Certo? Nem tanto. Nem tanto. No meio das obras realizadas no DF, há muito dinheiro do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, porém, nem todo mundo sabe disso. Também pudera. De acordo com fontes, o GDF está arrancando todas as placas do governo federal. Isso mesmo. Para passar a impressão de que as realizações na capital do país são exclusivas GDF, as placas com informações de onde vem os recursos não ficam sequer o tempo em que a obra está sendo construída. Segundo fontes, elas são arrancadas depois de alguns dias. Avalio que o GDF está em desespero para fazer uma coisa dessas, afinal, ainda com as placas, há muita gente que não consegue fazer a distinção do que é feito pelo governo local e o federal. Será que é o medo de perder as eleições de 2010?

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Arruda não vai cumprir acordo com Paulo Otá(rio)vio


Finalmente um jornal de Brasília teve coragem de tocar no assunto sobre o acordo estabelecido entre o governador José Roberto Arruda (DEM-DF) e o vice-governador Paulo Otá(rio)vio (DEM-DF). Para quem não se lembra, Arruda, segundo o acordo, não se candidataria à reeleição em 2010 porque seria a vez de Paulo Otá(rio)vio, já que ele abriu mão em 2006.

O jornal, que me recuso a citar o nome, publicou uma matéria no domingo informando um acordo sobre o acordo. Quero dizer, constrangido em cobrar o que lhe é direito, Paulo Otá(rio)vio, "para bem do partido", já estuda a possibilidade de não lançar seu nome em 2010 para repetir a chapa de 2006, quando foi vice de Arruda. Para isso, conforme o jornal, o próprio Otá(rio)vio vai anunciar o rompimento do acordo que lhe beneficiaria – que coisa, não?

Durante todo o texto, o assunto é tratado com um cuidado impressionante. A repórter escreve como se estivesse pisando em ovos. Bom. Pelo menos a notícia foi dada. E, como para bom entendedor meia palavra basta, ficou claro que Arruda não vai cumprir o acordo acertado com o seu vice, o que era de se esperar. Afinal, como diz o povão, onde já se viu macaco recusar banana?

domingo, 23 de agosto de 2009

Capítulo XV

Antônio Augusto nasceu em 1960 no interior, onde conheceu Maria de Lourdes Abadia, cinco anos mais velha que ele. Antônio e Maria se casaram e tiveram duas filhas. Pouco tempo depois, eles se mudaram para a tão badalada rua.

Antônio abandonou sua terra natal, mas não o costume. Andava sempre com um chapéu de cowboy na cabeça. Usava bigode. Fumava cigarro de palha de milho. Era magro. Branco. Médio.

Maria também era branca, porém, seu cabelo era encaracolado. Era bonita. Não era magra. Também não era gorda. “Minha mulher tem carne”, dizia sempre Augusto.

As filhas deles se chamavam Carolina e Karina. Carolina, a mais nova, se parecia muito com o pai, no entanto, não desgrudava da mãe. Apesar de ter puxado a mãe na aparência, Karina não era extrovertida. Ficava sempre na dela, quase não saia de casa.

Enfim, eles eram uma família feliz, mas o mundo dá muitas voltas e o tempo se fez muito cruel com Antônio. Abandonado pelas filhas e pela mulher, Augusto dormia em um sofá todo rasgado. Fazia duas semanas que ele estava com a mesma roupa. Uma garrafa de cachaça de alambique, quase vazia, estava bem próxima dele, em cima do único móvel que tinha no cubículo onde ele agora dormia. Depois de um, dos inúmeros desentendimentos com Maria, Antônio construiu um pequeno cubículo dentro de sua própria casa. O espaço contrastava com os demais cômodos da residência. Enquanto no cubículo as paredes, sequer, tinham reboco e o chão era grosso, sem piso, os quartos da casa tinham piso de cerâmica, eram pintados e forrados.

- Tá, tá, tá, tá!

Antônio acordou assustado e ouviu novamente “tá, tá, tá, ta”. Aquela hora da manhã, pensou, já com tiroteio. “Quem será que morreu dessa vez?”, Antônio se questionou, porém, não teve vontade nem ânimo de se levantar. Talvez pela fraqueza. Havia semanas que ele não ingeria alimento. Apenas bebia cachaça. Já não encontrava nenhum motivo para viver. Perdeu o emprego, o carro, a mulher, as filhas e até a moral.

Na verdade, ele não gostava quando pensava no que perdeu. Toda vez que isso acontecia, subitamente, sentia vontade de dar uma talagada numa dose de alambique. E foi o que fez. Levantou-se, agarrou a garrafa que estava na mesa e, sem se preocupar com copo, bebeu no gargalo mesmo. O litro quase ficou sem nada. Sobrou ainda uma dose. Antônio saboreou aquela bebida como se fosse a última. Deitou-se novamente e adormeceu.

Como se estivesse indo dessa para melhor, Antônio viu uma luz, enquanto dormia. A claridade lhe trouxe a lembrança dos momentos em que foi feliz, logo após ter mudado para aquela tão badalada rua.

Antônio era respeitado e querido por todos. Andava sempre bem vestido. Tinha muitos amigos. Na época, era o morador com a melhor situação econômica. Antônio trabalhava num emprego bom. Ganhava bem. Andava num opala preto. Todo final de semana tinha sua cervejinha garantida. Cachaça? Nem pensar. Antônio só bebia cerveja gelada. Muitas vezes, ele não esperava a garrafa, ou latinha, secar. Pedia logo outra. “Outra? Mas ainda tem cerveja aí?”, perguntava, às vezes, quem acompanhava Antônio que logo respondia “tem, mas já está quente. Não bebo cerveja quente”.

Muitas vezes, Antônio chegava em casa e, por causa do efeito do álcool, se deitava, sem tomar um banho e sem dar a devida atenção a sua mulher. Maria, começou a desconfiar de seu marido. Quis, portanto, saber se ele tinha outra. Certa vez, quando Antônio estava de saída, Maria perguntou:

- Aonde você vai?
- Vou alí no bar do Zé, tomar uma cervejinha. Volto já.
- Sabe de uma coisa... Também estou com vontade de tomar uma cervejinha. Vou também.
- Que isso mulher? Tá doida?
- Ué? Não posso tomar uma cervejinha com você? Por quê?
- Ai, ai, ai, mulher... Não fica muito bem para você.
- Eu não tô nem aí.
- A é? Você quer beber? Então vá sozinha porque comigo você não vai.

Para não discutir mais, Antônio saiu de pressa. Bateu a porta e foi. Carolina, que ouviu o barulho da porta, correu em direção da mãe.

- Cadê o papai, mamãe?
- Não sei, menina!
- Aonde a senhora vai, mamãe? Deixa eu ir com a senhora?

Maria não respondeu, contudo, Carolina, que naquela época tinha 10 anos, segurou na barra da camisa da mãe e foi junto com ela.

Quando chegou lá, Maria viu Antônio bebendo e pagando cerveja para seus amigos. Eram dois. Maria teve receio. Sentou, com a filha, numa mesa bem afastada de seu marido. O garçom veio atendê-la.

- Traz uma cerveja para mim. O que você quer, Carolina?
- Um refrigerante e um salgadinho.

Maria, naquele momento, inaugurava o seu alcoolismo. Passou a acompanhar mais vezes o marido. O efeito do álcool fez desaparecer toda a vergonha que Abadia sentia. Passou a sentar mais perto do marido e, quando menos se esperava, os dois já bebiam juntos.

- Vai para casa – ordenou certa vez Antônio.
- Vamos nós dois.
- Pode ir. Daqui a pouco eu vou. Deixa eu só pagar essa conta.
- É mamãe, vamos embora – disse Carolina que nunca saia de perto da mãe.

Maria obedeceu. Foi para a sua casa. Lá, esperou pelo marido durante horas. O suficiente para sua cabeça se encher de cenas de adultério. Imaginava Antônio com outra. Mas que outra? Maria Abadia não sabia, mas tinha a certeza de que alguma coisa estava errada. Afinal, por que ele não veio com Maria? Por que está demorando tanto? “Ele tem outra. Só pode”, pensava. E, por volta de meia noite, caindo de bêbado, Antônio chegou em casa. Às vezes, tomava banho. Não foi o caso. Deitou-se. Viu a mulher dormindo e não quis acordá-la. Se fizesse isso, seria apenas para desejar uma boa noite, pois ele estava tão bêbado que não conseguia, ao menos, levantar o cobertor para se embrulhar. Antônio, portanto, dormiu.

“Cachorro”, Maria pensou. “Eu estava certa. Ele tem outra. Gastou toda a energia que tinha com ela. Nem quis me acordar. Eu sou uma idiota mesmo. Não era para eu sair de lá quando ele mandou. Deixa. Ele me paga”.

No final de semana seguinte, Antônio e Maria foram convidados para uma festinha na casa de um vizinho. Os dois foram, acompanhados pelas filhas. Lá, a festa começou a ficar animada quando todos já estavam bêbados. Para dar o troco em Antônio Augusto, Maria Abadia, embriagada, deu em cima do amigo do marido, sem disfarçar. Ao perceber, Augusto quis ir embora. Chamou a mulher e as filhas; se despediu dos amigos; e foi.

Já em casa, Antônio não comentou nada. Ficou lá uns cinco minutos e foi para o bar. “Cachorro. Já vai me trair de novo”, Abadia imaginou.

- Aonde você vai, cachorro? – Maria gritou.

Antônio Augusto, porém, não escutou. Já estava na rua. Maria foi atrás. Carolina também, sempre segurando na camisa da mãe, que não se importava.

No bar, Maria Abadia fingiu que não conhecia Augusto. Começou a beber e ficou mais bêbada ainda.

- Mãe, vamos embora – Carolina pediu a Maria.
- É já, menina.

Animada, Maria teve vontade de dançar. Não chamou nenhum par. Apenas se levantou da mesa e começou a dançar. Antônio ficou com vergonha. Pagou a conta e foi para outro bar. Maria foi atrás, achando que pegaria seu marido no flagra.

Antônio não tinha terminado de encher o copo e a sua mulher chegou. Ele, portanto, perdeu a paciência.

- O que você quer atrás de mim? Vai pra casa?
- Eu não. Não está vendo que também quero beber; me deixa em paz.
- Mamãe, vamos embora – pedia novamente Carolina.
- Vai você. Não quero ir agora. Vai você. Anda.
- Vai levar a sua filha.
- Eu não. Ela que vá sozinha.

Enfim, ninguém foi. Ficaram os três lá. Maria, para provocar o marido, encontrou um par para dançar. Com receio, o homem, que era conhecido de Antônio, pediu permissão.

- Não tenho ciúmes. Pode dançar com ela.

Os dois começaram a dançar. Antônio Augusto pagou a conta e foi para casa. Ele levou junto a filha. Quando percebeu que o marido já não estava mais lá, Maria, antes mesmo de a música acabar, encerrou a dança. E foi atrás do marido. Pensou que ele tinha voltado para o bar que eles foram primeiro. Mas ele não estava lá. “Será que ele sumiu com a outra? Não pode ser. Ele saiu com a Carolina” Maria, portanto, foi para sua casa.

- Cadê o seu pai?
- Já tá dormindo.

Já era tarde e, no outro dia, Antônio Augusto tinha que trabalhar. Maria Abadia foi para a cama; se deitou. Queria carinho, mas Antônio dormia como uma pedra. Ela fez um cafuné na cabeça dele e nenhuma resposta. Deu um beijo na boca dele. Antônio se virou. Maria Abadia ficou indignada; se sentiu rejeitada. Passou aquela noite com lágrimas nos olhos e amargurada. Tinha que fazer algo. Decidiu não correr mais atrás de Antônio de bar em bar. Simplesmente não iria aceitar que ele dormisse ao lado dela, bêbado e sujo.

No final de semana seguinte, depois de tomar todas, Antônio Augusto chegou na sua casa tarde da noite. Dessa vez, queria o aconchego da mulher. Foi para o quarto, mas, para sua decepção, a porta estava trancada.

- Maria, abre a porta.

Maria ouviu, no entanto, fingiu estar dormindo. Antônio Augusto bateu na porta, de vagar, para não acordar as meninas.

- Abre a porta, Maria.

Foi em vão. Maria não abriu a parta e nem respondeu. Antônio bateu mais forte. Suas filhas acordaram.

- Maria! Abre a porta, Maria!!

Maria Abadia percebeu que as crianças já estariam acordadas com o barulho. Decidiu pedir para Antônio parar de fazer barulho e ir se deitar no sofá.

Quando ia bater mais uma vez, finalmente, Antônio viu a porta se abrindo.

- Por que você trancou essa porta? Até parece que você não sabia que eu ia chegar agora.
- O que você quer aqui? Por que não ficou na putaria com as suas negas?
- Ficou louca, mulher?
- Não fiquei coisa nenhuma. Só não vou aceitar mais você chegar de madrugada, bêbado e sujo, dormir comigo.

Maria bateu a porta na cara de Antônio e gritou de dentro do quarto.

- Vai dormir no sofá para ficar esperto.
- O que foi, papai? – perguntou Carolina, que tinha acordado por causa do barulho.
- Não é nada não, minha filha. Vai dormir.

Carolina achou entranho quando viu seu pai se deitando no sofá em vez de ir para o quarto da mãe, como fazia sempre.

- Por que você vai dormir aí, papai?
- O que eu mandei você fazer agorinha?
- Tá bom. Eu já estou indo dormir.
- Boa noite.

“Por que minha mulher está fazendo isso comigo?”, se questionava Antônio Augusto. “Sempre a tratei bem. Sempre fui fiel. O que fiz de errado?”. Antônio não conseguiu se lembrar o que havia feito de errado. “Eu sou um chifrudo”, concluiu Antônio Augusto. “Só pode ser isso. Enquanto estou no trabalho, ela deve ter encontrado outro, por isso está fazendo esse jogo de cena. É o que eu mereço por ser tão fiel”.

A partir daquele dia, as discussões entre os dois se intensificaram. Ambos desconfiavam um do outro. Antônio Augusto passou a assumir diante de todos que era um chifrudo. “Eu sou um corno”, proclamava no bar. “Todo o castigo para corno é pouco”.

Antônio Augusto bebia agora de segunda a segunda. Quando não chegava no serviço de ressaca, estava bêbado. Isso foi motivo para ser demitido, por justa causa. No início, não se importou tanto. Tinha umas economias. O suficiente para pagar as despesas do vício e um pedreiro para construir um cubículo na sua própria casa. Antônio já não queria mais a companhia de sua mulher. Já não ligava mais para suas filhas, pois elas sempre ficavam no lado da mãe.

O tempo passou e o dinheiro de Antônio ficou escasso. Para sair do aperto, vendeu o carro. Trocou a cerveja gelada pela cachaça que é muito mais barata. Entrou em depressão. Sentia-se só. Sentia a ausência das filhas, da mulher e dos amigos. Já não tinha mais motivos para viver. Até a luz que apareceu em seu sonho, que lhe fez ter as lembranças, estava acabando. Enfraquecendo. Abandonando-lhe. Até tudo se apagar e ficar escuro.

sábado, 22 de agosto de 2009

Livre e atrás da grade


Vivo numa democracia e tenho liberdade
Tenho livre arbítrio e liberdade
Atrás da grade
Livre e atrás da grade
Da janela
Da porta
Do portão
Da cidade
Tenho liberdade
Atrás da grade

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O PT está em crise?


Aos prantos, uma aguerrida militante petista protestava contra a atual situação do Partido dos Trabalhadores (PT). Ela dizia que não estava aguentando mais; que o partido era uma vergonha; que os projetos pessoais estavam acima de tudo; e que, se isso continuasse assim, iria se desfiliar do PT. A revolta foi causada um dia depois de o Conselho de Ética do Senado arquivar, com o apoio da base governista (inclusive do PT), as representações contra o senador José Sarney (PMDB-AP). Provavelmente, a petista leu essa notícia casada com a informação de que a senadora Marina Silva (PT-AC), depois de 30 anos de militância, deixou o Partido dos Trabalhadores.

A revolta da militante petista é mais uma vitória da direita. Parabéns para o PSDB e para do DEM que conseguiram, mais uma vez, pautar a sociedade por meio de seu principal porta-voz: a grande mídia – jornais, revistas, rádios e TVs.

Sem nenhum discurso ou projeto político de alternativa para o desenvolvimento do Brasil, a direita, com vista a sucessão presidencial, manipulou a imprensa para imbuir a ideia de que o Partido dos Trabalhadores está em crise e não representa mais a ética. Estratégia antiga. Já usada no ano pré-eleitoral de 2005, no caso mensalão.

Antes que alguém me diga que estou delirando; que estou desinformando e que não acompanhei as denúncias de corrupção, quero esclarecer uma coisa. Esquerda que é esquerda não deve ser pautada pela imprensa tradicional. Quem tem afinidade com as ideias marxista, não pode, jamais, engolir o que é divulgado pelos arcaicos meios de comunicação sem um espírito crítico e questionador. É preciso sempre lembrar que o golpe de 1964 foi apoiado e aplaudido pela imprensa brasileira. O golpe de 1964 só aconteceu porque a elite temia que o Brasil se tornasse um país comunista. O golpe de 1964, portanto, não deve ser esquecido porque é uma importante lição.

Não é estranho uma imprensa com o currículo anti-socialista criar um discurso para derrubar ou, pelo menos, enfraquecer o Partido que tem sua origem nos movimentos sindicais e sociais.

Infelizmente, nossa esquerda ainda é pautada pelos tradicionais meios de comunicação. Não quero aqui dizer que ela não deve mais ler, ouvir ou assistir às notícias da grande imprensa. Pelo contrário. A esquerda tem que acompanhar, sim, o que é divulgado pelos jornais, revistas, rádios e TVs, porém, acima de tudo, ela precisa se informar nos meios de comunicação alternativos, como blogs e sites independentes.

Se a militante petista citada no começo deste texto tivesse feito isso com um olhar crítico e questionador, provavelmente, ela teria entendido que, se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tivesse “salvo” o senador José Sarney da cassação, o PMDB poderia dar o troco na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instalada no Senado para investigar a Petrobras. Não seria nada bom para a candidatura da ministra Dilma Rousseff, sucessora do presidente Lula, a divulgação das irregularidades da Petrobras. Não estou defendendo a acobertação dos prováveis crimes da Petrobras. Avalio que ela deve ser investigada e ter transparência, porém, sou contra o uso da CPI para minar a candidatura da Dilma.

A Petrobras existe desde 1953 e por que, só agora, no governo do presidente Lula, ela deve ser investigada? Por que ela não foi investigada na era do governo de Fernando Henrique Cardoso?

O discurso da imprensa tradicional, portanto, tem por objetivo trazer o PSDB e o DEM de volta ao poder por meio de factóides e, não, de propostas de governo; é disso que temos que ter vergonha. O militante não deve ter vergonha do PT porque foi esse partido que elegeu presidente o primeiro proletário da história da humanidade. Foi o governo de um petista que tirou milhões de brasileiros da pobreza. É do PT o presidente que devolveu o respeito ao Brasil diante dos demais países do exterior.

O Partido dos Trabalhadores, portanto, não está em crise. Quem está em crise são os políticos que se acovardaram e pediram para sair do PT em 2005 e, agora, em 2009.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Brutalidade de baixo do nariz do poder


Brutalidade é a melhor palavra para definir o protesto dos motoristas e cobradores da empresa de ônibus Viação Planeta, realizado em Santa Maria-DF, na manhã de segunda-feira, 17 de agosto. Além de fazer obstrução da circulação dos veículos, os rodoviários apedrejaram quatros ônibus da Cooperativa de Transporte do Distrito Federal (Cootarde) simplesmente porque a empresa Planeta perdeu para a Cootarde o monopólio sobre (apenas) uma linha de ônibus.

Preste bem atenção, amigo leitor. Eu vou até repetir. Rodoviários apedrejaram ônibus da Cootarde porque sua empresa, a Planeta, perdeu para a Cooperativa o monopólio de uma; apenas uma; não mais que uma linha de ônibus.

Quer dizer, para eles, somente a empresa que os empregam devem prestar o serviço. Para eles, se houver concorrência, o seu empreguinho está ameaçado. E os passageiros? Os passageiros que se danem; que continuem pagando um valor alto por um serviço de má qualidade.

Quanto egoísmo e quanta ignorância.

Todo mundo sabe que, para existir um mercado perfeito, é preciso ter concorrência. O monopólio só é bom para o dono da empresa. O usuário do transporte público, sem opção, é obrigado a pagar a passagem e usar o ônibus, velho e caindo os pedaços, que o dono da empresa impor.

Mais revoltante é saber que a brutalidade aconteceu em Santa Maria, uma das cidades do Distrito Federal, que fica menos de 40 quilômetros da Capital da República. Apesar de ser periférica e pobre, Santa Maria, pode-se dizer, está de baixo do nariz do poder.

Se uma brutalidade como essa acontece de baixo do nariz do poder, imagine como deve ser nos rincões deste país continental? Em vez de pedra, tudo, imagino, de ser resolvido à bala e à peixeira. Ai daquela empresa que deseja entrar num mercado lucrativo como o de transporte público.

Também pudera. A empresa Planeta já está acostumada. Ela e muitas outras só precisaram participar de uma licitação. Nunca mais o Governo do Distrito Federal (GDF) se atreveu a fazer uma nova concorrência, ainda que o prazo de validade da licitação já esteja, há anos, vencido.

A situação é favorecida pela peleguisse da imprensa local. Se os jornais e TV fizessem o seu papel, eu estaria publicando agora mais um capítulo da história que estou fazendo e postando neste blog.

Veja o caso da TV Globo. O DF TV, como é chamado o noticiário local, fez uma cobertura muito ruim, e superficial, do que chamo de brutalidade. Até o nome da empresa eles não conseguiram divulgar de maneira correta. Para eles, o protesto foi feito pela Viação Planalto. Sem contar que muitas questões abordadas por mim, aqui neste artigo, sequer foram tocadas. Eles não mostraram que a passagem é cara, o transporte ruim e que a empresa Planeta circula sem licitação.

Já o DF Record, cuja emissora é duramente criticada pelo noticiário nacional da Globo por ser financiada pelo dinheiro arrecadado pela Igreja Universal do Reino de Deus, fez uma cobertura muito melhor. Aliás, o DF Record tem mais audiência que o DF TV porque sempre fez, e faz, reportagens mais apuradas, inteligentes e menos pelegas. O dinheiro dos crentes, portanto, está sendo bem usado no Distrito Federal.

Ainda não acabou. A Cootarde, que assumiu a linha que era da empresa Planeta, não veio porque o GDF é bonzinho e quer fazer um mercado perfeito no transporte público, beneficiando, portanto, os passageiros. Fontes me revelaram que a Cooperativa tem ligação com a família do vice-governador Paulo Otávio (DEM). Logo, é compreensível a Cootarde assumir uma das linhas mais lucrativas sem mais, nem menos.