Já faz um tempo que não publico neste blog minhas crônicas sobre o meu cotidiano sem graça – nem sei se poderia estar começando esta desta forma; talvez o mais correto seria escrevê-la sem nenhuma explicação, conforme já me aconselhara um colega. A época que mais escrevi crônicas foi quando eu era estudante de Comunicação Social. Tinha mais tempo e, principalmente, mais inspiração. Também tive uma fase de escritor que está suspensa desde a publicação do Capítulo XVI da obra que ainda não tem título (e aceita sugestões) – veja no canto direito deste blog.
A literatura é uma criação artística que precisa de inspiração e, principalmente, tempo. Desde que me formei, tive muito tempo, mas faltou inspiração. Um bom estado de espírito e de corpo são condições que propiciam ideias inspiradoras. Não é toda vez que me encontro nessa situação. Há sempre um motivo – inclui a preguiça – que me faz desistir de escrever.
Neste momento, estou com todas as condições para escrever um texto literário, inclusive, já era para eu ter começado a história.
Eu me considero uma pessoa privilegiada por transitar em dois mundos. Aqui no Distrito Federal (DF), frequento a periferia marginalizada e o grande centro opulento. Considero dois mundos. Duas realidades. E a pessoa que está restrita a somente um desses mundos, alienada.
No grande centro opulento, as pessoas são mais distantes, frias. É “cada um no seu quadrado”. Elas, porém, têm uma qualidade admiradora. Sonham. Acreditam que a vida vai melhorar e que daqui uns anos estarão numa situação melhor.
Na periferia marginalizada, as pessoas são mais calorosas. Com alguns minutos de conversa, parece que são amigas da gente há anos. A grande maioria fala um português diferente. Em vez de “nós vamos”, “nois vai”. Também pudera. A escolaridade de quem mora lá é muito baixa. Diferente de quem é do grande centro opulento, as pessoas da periferia marginalizada não sonham. São acomodadas, mas se consideram felizes.
Uma pessoa, por exemplo, que há anos sobrevive apenas com a venda de balinhas, se acostuma tanto com essa realidade que acaba se acomodando e não quer buscar melhoras. Ainda que o dinheiro lhe sirva mal para a alimentação e para o pagamento de algumas contas.
Quando eu sentei para escrever, minha intenção não era a de fazer uma reflexão sobre o mundo da periferia marginalizada e do grande centro opulento. Toda vez que sento para escrever, é assim. Muita coisa que eu sequer havia pensado acaba surgindo e vai para papel.
Na verdade, eu gostaria de falar sobre um ambiente que encontramos muito na periferia marginalizada, o “copo sujo”. Com cachaças de diversos tipos expostos na parede, como troféus, o “copo sujo” pode ser encontrado em qualquer lugar, mas na periferia ele é mais sujo ainda. Para quem não conhece a expressão, “copo sujo”, ou buteco, é o nome que se dá um bar que não tem uma aparência muito boa. Geralmente é um estabelecimento pequeno, onde rola música brega e é frequentado por gente feia, desarrumada, alcoólatra, enfim, no final da carreira.
O “copo sujo” é um lugar deprimente. Contraditoriamente, eu me sinto muito bem lá, principalmente, depois de beber a terceira garrafa de cerveja. Eu me sinto bem porque esqueço os meus problemas. Lá, consigo fugir da realidade. O “copo sujo” também funciona como um diván de um psicanalista. Sentado à mesa com um amigo, você pode desabafar, contando histórias que lhe incomodam ou agradam.
O “copo sujo” é o lugar da simplicidade. Lá, ninguém quer ser melhor que ninguém. Bebendo cachaça ou cerveja, todos assumem sua insignificância.
No domingo, 10 de outubro, fui em vários “copos sujos” da periferia marginalizada onde moro. Quando saio para beber, não gosto de ficar somente num buteco. Vou em vários, como se estivesse visitando a casa de amigos, os donos dos bares.
Um dos “copos sujos” que frequentei fica numa feira permanente. Cheguei por volta de meio dia, hora do almoço. Estava acompanhado por dois primos. A dona logo veio me atender oferecendo um almoço. “Acabei de fazer uma linguiça! Ah! Tem também uma galinha caipira que está muito boa”, disse. Como eu ainda não tinha comido nada naquele dia, pois estava de ressaca e havia tomado só uma água de coco, aceitei a oferta da dona do buteco e fui almoçar.
Enquanto eu saboreava a galinha caipira, desconfiado de que realmente fosse caipira, chegou ao espaço cultural da feira um músico que saiu candidato a deputado distrital e teve 1 mil e 29 votos. Carregando duas caixas de som, o músico chegou num Fiat Uno verde, todo arranhado.
Terminei de almoçar e o músico ainda não tinha começado a cantar. Estava instalando o som. Tomei umas quatro garrafas de cerveja e a apresentação ainda não tinha começado. Decidi ir embora, mas meu primo não deixou. “Esse cara é legal. Eu votei nele e quero ver ele cantar”, explicou Nego.
Nego e Wilsinho é como eu chamo os meus primos. Eles são irmãos. Nego tem 26 anos e Wilsinho, 27. Aparentemente, Nego parece ser mais velho que Wilsinho.
Um arroz caiu dentro do copo de Nego. Pensando que fosse uma mosca, inesperadamente, ele cuspiu a cerveja na mesa. Não fiquei com vergonha, apenas achei graça e comecei a rir. Quem ficou bravo foi seu irmão, porque estava do lado dele e respingou cerveja nele.
“Eco, seu porco! Por que você não vomitou no chão?”, Wilsinho questionou bravo. “Mas eu não vomitei. Eu só cuspi pensando que fosse uma mosca”, explicou Nego.
Achando muita graça da situação, comecei a “zuar” o Negão – como eu o chamo de costume. “Pô cara, você fica vomitando na mesa. Assim você vai queimar o nosso filme. Aposto que alguma gatinha viu você fazendo isso”, brinquei. “Mas não tem ninguém olhando para a gente. A não ser que a garçonete tenha visto”, disse Nego.
A garçonete era uma jovem com o cabelo pintado de loiro. Usava uma calça de laica e vestia uma blusinha apertada que deixava sua barriga, com pneuzinho, aparecer. O decote chamava atenção quando ela se abaixava.
“Essa garçonete é gatinha. Vamos dar uma cantada nela”, sugeri. “Ôxe! Já tem é tempo que estou olhando para ela”, disse Nego. “Mas é raparigueiro mesmo. Olha só. Antes mesmo da gente pensar em alugar a menina, ele já tava de olho nela”, protestou Wilsinho. Os dois irmãos são competidores quando o assunto é mulher. Nas últimas competições, Wilsinho sempre perdeu.
“Ela está correspondendo o seu olhar?”, questionei o Negão. Ele disse que não. Mesmo assim, decidiu perguntar se ela era casada. Chamamos a garçonete para levar os pratos do almoço e para limpar o cuspe do Negão.
“Vem cá”, disse o Negão quando a garçonete chegou. “Posso te fazer uma perg...”. “Se eu sou casada?”, respondeu a mulher antes de Nego terminar a frase. “Há, há, há! Essa deve ser a pergunta que você mais ouve aqui”, brinquei. A garçonete disse que não era casada, terminou o seu serviço e não deu muito moral para a gente...
Depois desse episódio, o músico começou a cantar. Pedimos mais uma garrafa de cerveja. “Aquele homem ali toca triângulo”, apontou Nego. Era um homem magro, baixo e barbudo. Naquele calor que fez nesse domingo no DF, ele estava usando blusa de mangas compridas. A pedido de uma gordinha que já tinha visto o homem tocar o instrumento, ele pegou seu triângulo, subiu no palco e começou a acompanhar a música cantada pelo ex-candidato a deputado distrital.
Do palco, volta e meia ele mandava beijo para a gordinha que aplaudia. A cena foi engraçada, principalmente, porque ele achava que estava “abafando”. Mas o homem teve que parar de tocar o triângulo porque o cantor mudou o ritmo da música. Mesmo assim, uma nova figura apareceu.
Um engraxate que perambulava pela feira subiu no palco e pegou o microfone. Ele só sabia o refrão da música. Toda vez que gritava para repetir o trecho da canção, alguns dentes que lhe restavam na boca apareciam.
O engraxate não foi a última figura a subir no palco. Uma mulher fanha também. Ela foi o motivo que me fez ir embora. Passei em outros “copos sujos”, antes de chegar em casa. Não contarei os detalhes para vocês porque já está na hora de eu encerrar este texto, senão ele ficará muito grande. Acho que o tempo que você dedica para ler os blogs já deve estar acabando. Então. Até a próxima crônica.

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